sábado, 4 de julho de 2009

Antártida

As geleiras da Antártida caminham três milímetros por ano em nossa direção. Calcular quando chegarão. Prever, num filme, o que acontecerá.


Michelangelo Antonioni



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Um filme de gênero catástrofe dirigido por Michelangelo Antonioni? Continuando com as postagens dos contos do livro O Fio Perigoso das Coisas e Outras Histórias (1983) – que prometi alguns posts atrás -, quando reli o acima – que mais parece uma sinopse -, imaginei-o adaptado para o cinema como um filme-catástrofe, algo entre A Aventura (L’ Aventura; 1959), de Antonioni, com o americano Fim dos Tempos (The Happening; 2008), de M. Night Shyamalan.


Se o diretor indiano costuma reinventar e brincar com as convenções dos filmes de gênero, não seria nenhum equívoco afirmar que Antonioni as subvertia, mas no cinema italiano. Veja: A Aventura, por exemplo, se fosse feito em hollywood, poderia muito bem desmembrar-se num típico filme policial; ou então O Passageiro – Profissão Repórter (Professione: Reporter; 1975) num triller ou roadmovie. Mas Antonioni sempre foi além. Partia das premissas dos filmes de gênero, para subvertê-los, criando suas próprias convenções e estilo.


Agora pense num típico filme-catástrofe do cinema americano atual, como O Dia Depois de Amanhã (The Day After Tomorrow; 2004), de Roland Emmerich, e Impacto Profundo (Deep Impact; 1998), de Mimi Leder. Repletos de apelos melodramáticos e de manifestos a favor da preservação da natureza e de que o homem contemporâneo anda doente nas suas relações com o próximo. A premissa do imaginário filme de Antonioni, Antártida, poderia até partir do mesmo ponto dos filmes citados de Emmerich e Leder, mas teria pretensões e um rumo completamente diferente.


O herói de Antártida poderia ser como Sandro (
Gabriele Ferzett), o de A Aventura; e como neste – o sumiço misterioso de Anna (Lea Massari) -, aquele poderia partir do encontro das geleiras da Antártida com uma grande cidade, mas aos poucos, assim como acontece com Anna, Antonioni deixaria tal premissa de lado, construindo outro rumo para suas personagens, como a inutilidade da história de amor entre Sandro e Claudia (Monica Vitti). E assim como Fim dos Tempos, de Shyamalan, Antártida seria contado, principalmente, por imagens, não por enredo, podendo ser uma aventura moral, ideológica ou sentimental.

Breno Yared