Um homem e uma mulher num restaurante à beira-mar. Vinho tinto espumante, pão feito em casa e salame. O salame é da cor do vinho, por isso e só por isso eles o comem.
Um cachorro entra e aproxima-se da mesa onde um homem e uma mulher estão sentados. Olha ao seu redor, vê a dona, sabe que não quer vê-lo circular entre os clientes e dá meia-volta para sair. Para na porta. A dona vai para a cozinha e o cachorro volta para dentro. Sabe que basta fingir obedecer.
Pouco a pouco os dois ficam bêbados. Decidiram ficar bêbados. Desaparece a sala meio vazia, a dona, o cachorro, até o mar. O mundo é a toalha, um metro por um. O mundo é branco. Nem precisam dizer-se certas coisas. Falam de bife, talharim, de tudo aquilo que não comeram, e de três pessoas que acabaram de entrar, dois gordos e um magro. Falam de suas mãos, da posição de suas mãos sobre a toalha ou seja no mundo.
Mas precisam se mexer, recomeçar a viagem.
Hesitam no instante de sair. Têm a sensação de que nunca conseguirão transpor a porta. De fato a mulher cambaleia, ri e deixa-se cair numa cadeira. O cachorro observa-a. Não podemos passar vergonha na frente do cachorro, diz o homem.
Do lado de fora agora está chovendo. Uma chuvinha fina que um vento leve faz com que oscile para um lado e para outro. A Mulher encosta a testa no teto molhado do carro. Fica assim por alguns instantes. Um cinza pesado em forma de nuvem parece grudar nas suas costas. Quando levanta o rosto o homem percebe que está chorando. Ou rindo. Ou rindo e chorando ao mesmo tempo. Suas histórias são reveladas mesmo sem contá-las. O homem também começa a rir, mas seus olhos estão úmidos. Essas malditas identidades de seus caracteres, duas identidades inconciliáveis que tornam impossível sua relação. São um homem e uma mulher inutilmente feitos um para o outro.
Uma voz grita:
- Vera! – e ao nome segue-se um xingamento. O homem e a mulher olham um para o outro. A mulher para de chorar ou de rir e com um movimento muito feminino entra no carro. O homem observa-a e entra também. Sente-se lúcido e viril. Liga o motor e acelera. O carro parte fazendo barulho e deixando as mascas no asfalto molhado.
O cachorro veio até a porta para vê-los partir.
Esse era o início de um filme. Aliás era o filme todo. Concentrar o acontecimento naquela hora e meia que durava a refeição, essa era a minha pretensão. Um filme que tinha um início e talvez não acabasse.
Sempre perguntei-me se é justo dar sempre um final às narrativas, quer literárias, teatrais ou cinematográficas. Uma vez trancafiada num casulo todo seu, uma história corre o risco de morrer ali dentro. Se não recebe outra dimensão, se não lhe é permitido prolongar seu tempo naquele tempo exterior onde estamos nós, protagonistas de todas as histórias. Onde nada é fechado.
“Deem-me finais novos”, disse uma vez Tchekov, “e eu reinvento a literatura”.
No ano de 2001, quando eu ainda morava em Belém, no Pará, costumava visitar semanalmente os sebos da cidade – onde sempre encontrava meu tio, o jornalista Lúcio Flávio Pinto, outro assíduo frequentador. Garimpei muitas raridades: livros pouco conhecidos de Cecília Meireles, edições antigas dos de Machado de Assis, passando pelas primeiras edições da revista Set e quadrinhos raros. Mas tenho carinho, sobretudo, por uma específica aquisição que fiz nos sebos de lá.
Os que eu frequentava eram três, principalmente O Relicário - que ficava, acredito que ainda fica, numa galeria pouco movimentada na Presidente Vargas, próximo à Praça da República. Naquele dia, tateando entre livros e estantes do sebo, deparei com o nome de um cineasta italiano que admiro muito: Michelangelo Antonioni. De súbito, pensei que fossem roteiros de seus filmes ou algum outro autor escrevendo acerca da obra do cineasta, mas estava enganado.
Folheando o livro, aleatoriamente, abri no texto intitulado Assim, só para Ficar Juntos. Li-o e reli-o. Não estava acreditando. Mas era um livro de contos: O Fio Perigoso das Coisas e Outras Histórias (1983), de Michelangelo Antonioni. Nem pensei duas vezes. Abri-o na contracapa. Olhei o preço. Dirigi-me até o balcão. Comprei-o. Uma verdadeira pepita por meros R$ 3,00. Pesquisando no Google, encontrei o livro em algumas livrarias por até R$ 60,00; e num sebo virtual por R$ 7,00. O meu: não vendo, nem troco - e nem empresto.
O cineasta Antonioni começou no neo-realismo italiano, mas foi além do registro da vida cotidiana na Itália durante o pós-guerra, filmando com um rigor formal ímpar, as angústias da burguesia italiana, em obras-primas como a trilogia da incomunicabilidade – O Eclipse (L’eclisse; 1961), A Aventura (L’ Aventura; 1959) e A Noite (La Notte; 1960) -, Blow up - Depois Daquele Beijo (Blown Up; 1966) e O Passageiro – Profissão Repórter (Professione: Reporter; 1975).
O escritor Antonioni se descreve “como um diretor que escreve, não um escritor”. Seus contos não são meros contos. Mas fragmentos de ideías para possíveis filmes, não realizados, transformados em contos - ou núcleos narrativos, como ele mesmo, o autor, denomina-os. Alguns mais parecem sinopses, outros são magníficos exemplares de contos literários. Há o lírico Na Cavidade de um Lírio. O irônico Caçada Trágica. O curtíssimo Antárdida. O comovente Crônica de um Amor que Nunca Existiu.
No trecho final do conto, o cuidado formal dos filmes de Antonioni, também se entende aos seus núcleos narrativos, como ele mesmo afirma: “Um filme que tinha um início e talvez não acabasse”, completando “Sempre perguntei-me se é justo dar sempre um final às narrativas, quer literárias, teatrais ou cinematográficas.” O que acontece depois que o homem e a mulher saem no carro? Será que importa mesmo saber?
Em A Aventura, por exemplo, o misterioso desaparecimento de Anna (Lea Massari), com o decorrer do filme, vai perdendo seu grau de importância à trama. Anna vai sendo esquecida pelas personagens que interagiu até então e por nós. O que poderia ser um filme de gênero, tipicamente americano, transforma-se num filme de Antonioni. A forma como o cineasta trabalha as convenções do cinema, não resolvendo a trama com artifícios convencionais.
“’Deem-me finais novos’, disse uma vez Tchekov, 'e eu reinvento a literatura”', tanto em seus núcleos narrativos quanto em cinema, Antonioni seguiu a máxima do escritor russo: experimentou com a estrutura de suas narrativas. E o seu olhar, como ele mesmo afirmava “Quando não sei o que fazer, começo a olhar”, é um olhar inquietante, um olhar pulsante, um olhar sem volta. Sem volta, porque não tem mais como ver tudo da mesma forma depois de ver com Antonioni. Nos próximos posts, aqui, transcreverei e comentarei outros contos do magnífico livro de um dos maiores homens do século XX, Michelangelo Antonioni.
Breno Yared

