Los Angeles, março de 1928. A mãe prepara o filho para levá-lo à escola. Vesti-o. Arruma-o. Observa-o medindo sua altura na porta do quarto. É uma mãe dedicada e afetuosa. Juntos no ônibus, a mãe de despede do filho. A câmera os enquadra de dentro, sempre fixa e sem cortes, tendo a escola mais ao fundo; ele desce do ônibus à esquerda do quadro, enquanto ela continua sentada indo embora; então vemo-lo, ao fundo, entrando na escola emoldurado pela janela do ônibus.
Numa certa manhã, após a mãe ir ao trabalho e deixar o filho sozinho em casa, misteriosamente, ele desaparece. Ela, sempre sozinha, busca o filho nos espaços vazios deixados por ele pelos cômodos da casa. Cinco meses depois de incessante busca, a polícia de LA lhe entrega um garoto dizendo ser seu filho desaparecido. Na estação de trem, a mãe corre para reencontrá-lo. A câmera, em plano subjetivo, num travelling rápido, mostra-nos imageticamente o sentimento dela.
Mas ao ver o suposto filho desaparecido, a mãe diz que não é ele. Confusa e pressionada pela polícia, acaba levando-o para casa. O convívio com o filho não é fácil. Ele a chama de mãe, mas ela não acredita que ele realmente seja seu filho. Numa certa noite, vendo-o deitado de costas na cama, ela senta ao seu lado e desabafa, dizendo que não o trata mal por odiá-lo, mas porque enquanto ele está ali, o seu verdadeiro filho continua sumido. A câmera se posiciona em frente aos dois, tendo, ao fundo e à direita, o outro cômodo da casa emoldurado no enquadramento, que ilumina parte do quarto.
A mãe: Christine Collins (Angelina Jolie). O filho: Walter Collins (Gattlin Griffith). O filme: A Troca (Changeling; 2008), de Clint Eastwood. O filme foi realizado sob encomenda ao produtor e cineasta Ron Howard (“O Código da Vinci”, “Apollo 13”, “Uma Mente Brilhante”), mas foi dirigido por Eastwood. Lendo a premissa do filme, parece com vários melodramas baseados em fatos reais realizados para o cinema ou televisão todo o ano. Então o que difere A Troca dos demais? A direção de Eastwood. Mesmo respeitando e incluindo as exigências de Howard como produtor.
Passagens do roteiro dramaticamente duvidosas, que pouco acrescentam ao resultado final, como o diálogo no presídio entre o assassino serial e Christine e a sequência do enforcamento, não diminuem em nada o belo trabalho de Eastwood. Muito pelo contrário. Mostram que seguir concessões impostas, por quem é realmente o dono, num filme de encomenda, não diminui em nada o trabalho autoral do diretor.
Nos créditos iniciais de A Troca, Eastwood usa a logo da Universal Pictures dos anos 30, remetendo aos melodramas americanos suntuosos da época, como os de Douglas Sirk. Mas ao contrário deste, aquele não é grandioso, como cinema, pelo subtexto, mas pela forma, pela mise en scène, pela sensibilidade de Eastwood como diretor.
A forma como ele usa a mise en scène emoldurando enquadramentos, muito mais por estilo. Os travellings que mostram a mãe sempre em busca do filho: ora em movimentos rápidos de câmera dentro da casa, ora no ônibus passando em frente à escola dele. A forma sutil e delicada com que utiliza a trilha sonora, como em Menina de Ouro (Million Dollar Baby; 2004) e As Pontes de Madison (The Bridges of Madison County; 1995). John Ford, Howard Hawks e Martin Scorsese devem estar orgulhosos com o verdadeiro homem de cinema que é Clint Eastwood.
Breno Yared

