sábado, 13 de junho de 2009

Nossa Estrela no Céu Cada Vez Mais Distante

Navegando pelo Jornal Pessoal, a agenda amazônica do meu tio, Lúcio Flávio Pinto, acabei encontrando um belo texto dele sobre os 60 anos de Chico Buarque de Holanda. Caiu como uma luva. Porque eu estava finalizando um texto sobre o verdadeiro Rei da música nacional: Chico Buarque.

Não no sentido comercial do “Rei” da Globo, Roberto Carlos, mas no sentido pleno de letrista, músico, poeta e homem comum. Chico é um artista genial, mas vive como os homens simples de suas músicas. Como eu e você. Deixarei o meu texto sobre o grande Chico mais para frente. Agora transcrevo aqui o do tio Lúcio.

Breno Yared


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Chico Buarque de Holanda e eu completamos 60 anos nesta mesma década. Tinha que começar esta crônica com essa igualdade. É a única aproximação que há entre nós. Somos da mesma geração, que ele expressa como poucos. É uma felicidade ser contemporâneo dele. Chico é tudo que não somos ou não conseguimos ser, mas não o invejamos. Pelo contrário: temos um orgulho dele que é interminável, como a Gilette dos bons tempos. Chico é uma criação rara da natureza: bonito de doer, bem nascido, de estrela e que cria sem esforço, como se tudo que cria fosse pura inspiração, descendo mansamente como maná do céu. Faz parecer simples compor as músicas que ele compõe.

É o traço que distingue o artista excepcional da média dos bons. Como se já tivesse nascido com o dom, suas primeiras músicas nasceram clássicas, perfeitas. Estavam na contramão de sua época, não integravam escolas. Porque mal saíram do compositor já integravam o cancioneiro nacional. Não sendo de vanguarda, um demarcador de épocas, ele veio ao mundo para ser eterno. Crianças, adolescentes e idosos desfrutam de suas composições. Não por um ajuste demagógico ou comercial aos tempos, conforme a trajetória de Roberto Carlos. É porque Chico fala ao gênero e à espécie, indiferente ao tempo, universal. Por isso foi difícil enquadrá-lo e compará-lo: ele é único.

O patrimônio imenso que trouxe ao nascer, ele o enriqueceu com seus atos conscientes e o exercício do seu livre arbítrio. Podia dar-se mal por sua beleza ou pelo hábito de beber muito. Compensou os riscos e as extravagâncias com a prática de esportes, do futebol de campo ao de botão, o caminhar, o rir, a partilhar sua luz. Na hora de compor é o poeta, seresteiro, trovador anunciado por Gil. No momento de se expressar como pessoa, é um cidadão soberbo (e sem soberba).

Claro que o ídolo não é a tradução da perfeição. Vendo com muita atenção o documentário sobre seu pai, o historiador Sérgio Buarque de Holanda, me surpreendi com Chico, o mais comedido (e às vezes incomodado) dos filhos a depor. Quase não falou. O que falou, forçado, parece trair um sentimento de (como diria para ser fiel?) mágoa em relação ao pai. Sérgio pontificou num segmento da expressão humana que exige mais transpiração, ou então porque não foi bafejado com tanta fertilidade pela natureza quanto o filho. Estudou mais, soube mais, fez mais. Para isso, se fechava em seu gabinete. Talvez não tenha dado ao filho, o mais brilhante e famoso da família, a atenção que ele queria, ou julgava merecer.

Quem haverá de saber? É a tonalidade escura na biografia rutilante de Francisco Buarque de Holanda, o melhor de nós, que tanto bem nos fez em grande parte dos seus agora 60 anos. Na marca do tempo, igual a nós. Nossa projeção do melhor de nós num firmamento que nunca alcançaremos. Por isso mesmo, ao nos emocionar, nos seduzir ou nos fazer chorar, fazendo-nos melhor do que somos.

Lúcio Flávio Pinto

2 comentários:

Diego Brito disse...

O Rei também é humano.

Breno Yared disse...

Ainda bem, Diego.