Em 2001 assisti ao primeiro Senhor dos Anéis, a Sociedade do Anel. Sim, eu era um dos poucos espectadores, no cinema, que havia lido o livro de Tolkien e estava louco pra ver o resultado daquela transposição. Mas antes mesmo do filme iniciar, pensei comigo: esta é a visão de Peter Jackson da obra e não a minha – criada a partir de uma imaginação um pouco juvenil.
Com essa idéia, não tive problemas ao ver que Bombadil foi sublimado, que algumas partes foram contadas de forma diferente de como eram realizadas no livro e, confesso, que em certos momentos vibrei ao constatar que o barbudo Jackson viu cenas inteiras da forma que eu “vi”.
Por tudo isso, saí bem feliz de dentro do cinema e já roia minhas unhas para ver o que o diretor neozelandês havia feito com as outras duas partes da saga de Frodo e seus companheiros.
A partir daquele momento pensei o seguinte quanto adaptações: você não é especial porque leu a obra e as demais pessoas ao seu redor não são burras porque não o fizeram; sim o diretor tentou o seu melhor, mas lembre que há variáveis que pesam, como engravatados que vêem cinema pelo prisma da grana e não da arte; e se você imaginou aquele grande calhamaço de páginas de uma forma que somente você poderia fazer, seu nome não é fã ou muito menos diretor, mas autor.
Dito isso, agora podemos falar do novo filme de Zack Snyder – o homem que está se profissionalizando em modernização de grandes obras para as telas de cinema, vide “Madrugada dos Mortos” e “300” – uma adaptação para cinema da melhor obra em quadrinhos que meus olhos devoraram e que minha mente jamais esquece: “Watchmen”.
Primeiro os pontos positivos: não vi grandes diferenças visuais – resultado da participação direta do desenhista da obra, Senhor Dave Gibons, nos bastidores da adaptação – pelo contrário, fiquei feliz de muita coisa ter sido levada em conta e outras até mesmo elevadas a uma realidade irrepreensível.
O contexto não foi alterado, assim ainda estamos na década de 80, mais precisamente em 1985, o ápice da Guerra Fria, mas com o terrível Nixon ainda no poder. Vivemos uma era em que os heróis mascarados foram retirados das ruas para que o governo tivesse um maior controle da população e até mesmo da informação.
É aqui que a história começa, tanto no cinema como na revista, com o assassinato de um dos veteranos heróis e que agora trabalha pro governo dos EUA: o inescrupuloso Comediante. E a partir daqui seguiremos as pistas espalhadas por esse universo destoante de hoje em dia, mas tão bem imitado por séries de TV – como “Heroes”.
Os personagens estão perfeitos. Não há diferença na encarnação em pele e ossos desse ícones da nona arte. Mas admito que dois ultrapassaram as interpretações e se tornaram reais, graças a performance de seus interpretes: Rorschach (perfeita atuação de Jackie Earle Haley) e o Comediante (de Jeffrey Dean Morgan).
O final foi alterado, mas sinceramente não faz tamanha diferença e talvez seja até mais sombrio que o final original – em que uma lula gigante matava boa parte da população de Nova Iorque. E o mais importante, textos de diálogos inteiros – talvez os melhores já escritos na historia dos quadrinhos – foram seguidos ao pé da letra, ou como os advogados tanto gostam de dizer: ipsi litteris.
No acerto dos ponteiros posso dizer 3 importantes coisas: a adaptação é fiel, mas está longe de passar toda a experiência que o gibi oferece – diferente do caso do Senhor dos Anéis; espere com ansiedade pelo DVD duplo que logo deve pintar nas lojas – ali está a versão do diretor, com mais 30 a 45 minutos de cenas inéditas, além do Conto do Cargueiro, que vem em animação; sim, Zack Snyder acertou a mão mais uma vez e ao prestar atenção no público que sai com um sorriso na cara apos a sessão, ele merece palmas – pela coragem e pela competência.
Bom filme, mas Watchmen - o gibi, é mais que Watchmen - o filme. Nota 8,5!
Rodrigo Castro


6 comentários:
Até agora, o melhor que assisti no ano. Tudo estava meio morno... sem provocação... nas telas dos cinemas.
Confesso que estava convivendo com uma brochada pós-Oscar (insoso um pouco mais que sempre foi).
Voltado ao Watchmen, o filme me fez arregalar os olhos durante quase todas as cenas. Piscar era perder tempo... ou um fotograma muito bom.
Sincronização rara entre a linguagem em HQ e a da imagem em movimento. Os traços de Dave Gibbons estavam quase todos lá... muito bem reproduzidos por Zack. Fato que o camarada manja e gosta de graphic novel. É um grande tradutor do gênero.
Passou perto da exatidão visual e descontruções psicológicas-éticas-morais que a série original propõe.
Entre os grandes méritos do filme, o Comedian de Edward Blake é irretocável... diria que demasiadamente bem estruturado! Vibrava quando ele aparecia em cena. Marcou bacana.
Imagina o DVD Directs Cut? Tem mais 40 minutos de filme e o conto do cargueiro...
Rod Castro
Confesso que não estava muito interessado em assistir a obra de Zack Snyder, em parte eu devia isso ao fato de achar que talvez ele estivesse se influenciqando demais com a opião dos fãs que querem até a cueca do Rorschach com a mesma cor da HQ, e fiquei contente de estar errado. Sobre a fidelidade visual prevaleceu a fidelidade contextual e principalmente emocional, todos os dramas e dilemas estavam representados com a visão de alguém que tbm acompanhou e se emocionou junto daqueles seres humanos debaixo daquelas fantasias, isso talvez seja o grande âmago de Watchmen: poder dá privilégios mas também demanda sacrifícios. Uma das cenas que mais me chamou a atenção, embora alguns a tenha achado exagerada foi a transa entre espectral II e o Coruja, depois de conhecermos seus backgrounds e a relação deles com o mundo, a cena vai para além do sensual, aquele orgasmo era o orgasmo que o século 20 precisava como compensação por toda a barbárie e frustração que testemunhou. Fora o enterro do Comediante ao som de Simon & Garfunkel, representantes legítimos da era ingênua do folk americano.
O final, como falei no blog do Mark, não achei nem um pouco problemático, mesmo pq ele pode ser diferente visualmente, mas segue a lógica da idéia que Ozymandias defendia, e que no final até o ser mais poderoso da terra foi obrigado a admitir ser a melhor solução chegando ao ponto de ter de eliminar o único que tinha coragem pra dizer a verdade às pessoas, o perturbado Roscharch.
Pra mim, direção e elenco estavam em grande sintonia, não só entre si, mas com o universo restratado e isso considerando a pressão, tanto de um estúdio, quanto dos fãs, demonstra que Snyder e sua turma conseguiram um feito e tanto e eu os saúdo por isso.
Eu ainda não fui assistir “Watchmen”. Verei amanhã. Mas concordo com o Rodrigo quando ele comenta sobre adaptações, como o “O Senhor dos Anéis”. Logo depois que vi o primeiro filme da trilogia, li os três livros e mais outros que descrevem toda a mitologia criada por Tolkien, como “O Silmarillion”. Lembro que ele comentou que no primeiro livro, Tolkien descrevia incrivelmente ruídos, passos, gritos e sons das Minas de Mória. E que no filme de Jackson, o diretor conseguiu passar a mesma sensação descrita no livro, tanto que a passagem da Irmandade do Anel pelas Minas de Mória é um dos melhores momentos de todos da trilogia.
Fernando, concordo com você: houve realmente mais acertos que erros, mas deixando o filme de lado e entendendo um pouco mais a complexidade que a obra de Gibbons e Moore: o melhor realmente, teria sido uma série - mas acho que eles ficaram com medo de que as pessoas pensassem que alguns espertinhos haviam copiado o mote de Heroes, heheheh
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