Enjoei de BBB (Big Brother Brasil). A única coisa interessante que a 9ª edição do programa trouxe de bom, passou no intervalo entre um bloco e outro: um VT de 30s da principal ação publicitária do Banco HSBC para 2009, O Que Importa para Você. Mas o que há de tão diferente no institucional do HSBC que os outros não tem? Além de bem produzido, destacaria o que me encantou quando o vi: a ternura. A forma delicada com que os produtores mostram o amor incondicional de uma mãe pelo seu filho.
Tudo que vemos é a partir da perspectiva da mãe. Para ela, ele sempre será aquele garotinho que ela carregou nos braços. Como se criasse visualmente a hipérbole: Ela é louca pelo filho. A forma terna simbolizada no VT do HSBC, do amor irrestrito de mãe, lembrou-me, por incrível que pareça, um filme e uma música, respectivamente: Lavoura Arcaica (2001), de Luiz Fernando Carvalho, e Você, Você (1997), de Chico Buarque. Mesmo uma simples propaganda mexe com nossas reminiscências.
Se a mãe do VT do HSBC parece ser super protetora e afetiva com seu filho, não se difere muito da mãe (Juliana Carneiro da Cunha) do filme de Carvalho. Ela transborda afeto. Até demais. Enquanto que a mãe da música de Chico Buarque tem quase uma relação edipiana com o filho, mas não menos afetiva. Mesmo que o deslumbre, pelo outro, seja mais do filho pela mãe.
Chico a compôs para o neto, como se ele olhasse do berço para a mãe arrumando-se para deixá-lo aos cuidados da avó ou na creche: Que roupa você veste, que anéis?/ Por quem você se troca?/ Que bicho feroz são seus cabelos que à noite você solta?/ De que é que você brinca?/ Que horas você volta?
Há uma sequência terna em Lavoura Arcaica, entre André e a Mãe, que sintetiza tudo isso.
Nunca esqueço, na minha infância, quando a minha mãe me acordava de manhã bem cedinho, com aquele sol dourado que banhava todo o quarto, e eu fingia ainda estar dormindo. Exatamente como no filme de Carvalho.
Quando a mãe desliza as mãos debaixo do lençol do filho e suas mãos se encontram em carícias.
O afeto: que na música do Chico, trocando-se o dia no filme de Carvalho pela noite, a mãe dá o beijo de boa noite no seu filho: Seu beijo nos meus olhos, seus pés/ Que o chão sequer não tocam/ A seda a roçar no quarto escuro/ E a réstia sob a porta/ Onde é que você some?/ Que horas você volta?
E as cantigas de ninar, como as que a mãe diz para André: Meu Coração, Meus Olhos, Meu Cordeiro; e a que o filho pede para a mãe de Você, Você: Me sopre novamente as canções/ Com que você me engana/ Que blusa você, com o seu cheiro/ Deixou na minha cama? Você, quando não dorme/ Quem é que você chama?
Finalizando a sequência toda com a terna elipse de André indo à igreja feito um balão.
Nunca vou esquecer as simples, singelas e curtas palavras que um amigo uma vez me disse: “Boa parte das lembranças da minha vida, principalmente as da infância, só a minha mãe tem. Quando ela morrer, lembranças de mim irão com ela. Parte de mim também morrerá”. O excesso ou a falta de afeto entre mães e filhos. Não importa. Estamos sempre voltando para casa.
Breno Yared


4 comentários:
Lavoura Arcaica expressa de maneira perfeita e sublime a relação entre mãe e filho, e é nele que há uma das cenas mais linda do cinema, além da descrita por ti em que André é acordado pela mãe: quando André observa sua mãe balançando-se na cadeira de balanço, e ele diz:“E pude vê-la sentada na cadeira de balanço, absolutamente só e perdida nos seus devaneios cinzentos, destecendo desde cedo a renda trabalhada a vida inteira em torno do amor e da união da família. E vendo o pente de cabeça em sua majestosa simplicidade no apanhado do seu coque, eu senti por um momento que ele valia por um livro de história.” (Lavour’Arcaica – Raduan Nassar. No fundo, adoro essa cena porque expressa a minha relação com minha mãe.
Fábia Martins
E nessa cena que citas, Fábia, sensorial é a câmera que se movimenta seguindo o balançar da cadeira da mãe, até André surgir na janela como uma lembrança.
Este post sobre "Lavou Arcaica" não termina aqui. Acabei desmenbrando-o em duas partes.
Beijos!
Belo texto, Breno..
Gosto muito desse filme, embora imperfeito.
Quando começei a ver achei q estava vendo o melhor filme da minha vida, pena que a parte final não seja tão boa.
Mas é um show de misé-en-scene, isso é.
Não sei bem se eu diria imperfeito, Fernando, mas sim excessivo. Só assisti ao filme em DVD. Mas já vi alguns comentarem que os excessos nem são percebidos em película na tela de cinema. Gosto do jeito que está. Mesmo que a parte final seja um tanto "verborrágica".
Abraço!
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