terça-feira, 5 de agosto de 2008

They Called me Mr. Glass

David Dunn e Elijah Price são arquiinimigos: este é frágil como o vidro, aquele é inquebrável. Ambos têm o mesmo ponto fraco: a água. Herói e vilão conectados como a face de uma carta de baralho com extremidades invertidas, mas que são uma só. David precisa de Elijah – e vice-versa – para que a existência de ambos tenha significado.


Corpo Fechado é o primeiro ato do surgimento de um herói de história em quadrinhos e de sua relação com o arquivilão. M. Nigth Shyamalan nos mostra toda essa dualidade entre David e Elijah através de idéias de reflexo, contraste e simetria.


Na primeira seqüência do filme, o nascimento de Elijah, temos o espelho como elemento dramático que permeará toda a obra. Ele ainda é apenas um reflexo, uma imagem invertida. A câmera se movimenta seguindo a mesma lógica de mise en scène empregada por Shyamalan na seqüência do trem citada no post anterior: ela direciona o olhar do espectador






A idéia de reflexos e do vidro que definem Elijah, também se estende a David, como na cena do trem em que ele encosta a cabeça na janela de vidro.

O vidro do carro onde Elijah deixa o bilhete para David.


E David como um reflexo.


Shyamalan também se utiliza de imagens invertidas que são contrastes para enfatizar esse sentido.







E mais: o mundo de David que vai de cores frias no início para quentes no final.



Contrastando com o de Elijah que vai do quente para o frio.


Quando David veste o capuz que usa no trabalho como segurança - que depois simbolizará sua vestimenta como herói -, temos simetria.

Com um flasback somos apresentados à infância de Elijah. O plano abre com ele refletido pela televisão. Mais uma vez um reflexo.



A mãe de Elijah coloca uma revistinha em quadrinhos no banco do outro lado da rua, propondo ao filho: toda vez que ele sair de casa, ela comprará uma nova. Construindo em cima da idéia de reflexo que permeou Elijah até então, Shyamalan o mostra virando a revistinha com um movimento de 180º e a câmera um de 360º. É como se até então tudo estivesse invertido, mas agora colocado no eixo certo, deixando de ser um reflexo.







No plano seguinte, com um corte-elipse, vamos para o presente, onde Shyamalan afirma mais uma vez a relação de Elijah com universo dos quadrinhos, mas agora utilizando a alternância de foco.



Quando David e Elijah dividem o mesmo enquadramento, sempre vemos simetria, estão conectados.




No tão esperado clímax do filme, o confronto final entre David e Elijah, Shyamalan utiliza um dos princípios primordiais do cinema Hitchcockiano: ser econômico no uso de recursos formais a fim de guardá-los para momentos de maior intensidade, tendo sempre como objetivo a técnica subordinada à eficácia dramática.


Como já comentei inúmeras vezes, em Corpo Fechado, a câmera só se movimenta para mostrar mudança emocional. Ao longo do filme, há movimentos de câmera sutis ou rápidos que expressam isso, mas nada comparado ao vertiginoso travelling para trás, de David em direção a Elijah, e em seguida o mesmo movimento para trás, de Elijah para David, no confronto final entre os dois. Somente na cena de David testando seus poderes, na estação, tínhamos visto movimento parecido, que tem a mesma função utilizada aqui: saber guardar os recursos formais para momentos de maior dramaticidade.





Na última cena do filme, Elijah nos deixa com o momento mais mágico de toda a obra-prima de Shyamalan, sintetizando toda a sua busca pelo sentido de existência: “They called me Mr. Glass.”


Breno Yared