David Dunn e Elijah Price são arquiinimigos: este é frágil como o vidro, aquele é inquebrável. Ambos têm o mesmo ponto fraco: a água. Herói e vilão conectados como a face de uma carta de baralho com extremidades invertidas, mas que são uma só. David precisa de Elijah – e vice-versa – para que a existência de ambos tenha significado.
Corpo Fechado é o primeiro ato do surgimento de um herói de história em quadrinhos e de sua relação com o arquivilão. M. Nigth Shyamalan nos mostra toda essa dualidade entre David e Elijah através de idéias de reflexo, contraste e simetria.

A idéia de reflexos e do vidro que definem Elijah, também se estende a David, como na cena do trem em que ele encosta a cabeça na janela de vidro.
O vidro do carro onde Elijah deixa o bilhete para David.
E David como um reflexo.
Contrastando com o de Elijah que vai do quente para o frio.
Quando David veste o capuz que usa no trabalho como segurança - que depois simbolizará sua vestimenta como herói -, temos simetria.
Com um flasback somos apresentados à infância de Elijah. O plano abre com ele refletido pela televisão. Mais uma vez um reflexo.
A mãe de Elijah coloca uma revistinha em quadrinhos no banco do outro lado da rua, propondo ao filho: toda vez que ele sair de casa, ela comprará uma nova. Construindo em cima da idéia de reflexo que permeou Elijah até então, Shyamalan o mostra virando a revistinha com um movimento de 180º e a câmera um de 360º. É como se até então tudo estivesse invertido, mas agora colocado no eixo certo, deixando de ser um reflexo.
No plano seguinte, com um corte-elipse, vamos para o presente, onde Shyamalan afirma mais uma vez a relação de Elijah com universo dos quadrinhos, mas agora utilizando a alternância de foco.

No tão esperado clímax do filme, o confronto final entre David e Elijah, Shyamalan utiliza um dos princípios primordiais do cinema Hitchcockiano: ser econômico no uso de recursos formais a fim de guardá-los para momentos de maior intensidade, tendo sempre como objetivo a técnica subordinada à eficácia dramática.
Como já comentei inúmeras vezes,
Na última cena do filme, Elijah nos deixa com o momento mais mágico de toda a obra-prima de Shyamalan, sintetizando toda a sua busca pelo sentido de existência: “They called me Mr. Glass.”
Breno Yared




