Eu sou um deles. Não nego. Mas não sou membro de uma possível nova facção islâmica rival aos xiitas e sunitas, muito menos militante de um novo Manifesto Comunista de Karl Marx. Nem somos, na verdade, uma seita. Os shyamalaneistas são apenas apreciadores e defensores – bom lembrar, fanáticos e radicais, única semelhança com os adoradores do Alcorão - do cinema de M. Night Shyamalan. É verdade que conheço raríssimos shyamalaneistas convictos - apenas dois amigos -, mas já é um começo.
Nós também não fazemos ataques terroristas como os fundamentalistas islâmicos, nem passeatas como os socialistas, mas quando lemos aberrações sobre os filmes de Shyamalan, como os que já li acerca de A Dama na Água (Lady in the Water, 2006) e Corpo Fechado (Unbreakable, 2000), a vontade é de jogar uma bomba na cara do dito cujo: “os personagens aceitavam as coisas por mais absurdas que fossem com muita naturalidade” e “o filme é lento, cansativo, e se você pensa que é um novo ‘O Sexto Sentido’, esqueça!" Nossa única arma contra atrocidades como essas são os argumentos. E convenhamos: dos que citei, são tão fáceis de serem rebatidos, que nem perderei tempo rebatendo-os apenas com texto, farei algo bem melhor.
Outro dia conversando com dois amigos, comentamos que “Shyamalan esfrega na nossa cara que é bom”. Então é isso que farei: esfregarei na cara dos leitores do blog o quanto ele é talentoso como cineasta. Meu discurso pode parecer afetadinho e exagerado, mas lembre-se: igual aos franceses da Nouvelle Vague fizeram nos Cahiers Du Cinéma com Alfred Hitchcock, Howard Hawks, John Ford, Max Ophüls, Nicolas Ray defendendo a “teoria autoral”, também é preciso exaltar os cineastas contemporâneos, como Shyamalan, que seguem os pilares do movimento.
Vamos logo ao que interessa. Já tem texto demais – e essa não é a proposta do blog. Um exemplo que eu sempre cito - e amo -, nos filmes de Shyamalan, é a aparição de Story, em A Dama na Água. A forma como o diretor simplesmente guarda o contracampo durante os primeiros minutos de filme, até o momento em que vemos Story (Bryce Dallas Howard) pela primeira vez em um belo close up de seu rosto no quarto de Cleveland (Paul Giamatti).
Tudo começa no primeiro plano, na cena sob a pia, no qual não vemos o que Cleveland tenta matar - se nós víssemos seria o contracampo.
A cena continua sem corte, e Shyamalan apenas abre o plano, que também acaba sendo de localização.
Assim, os personagens principais são apresentados apenas com o recurso do campo, sem o contracampo. Por isso que não vemos o rosto da chinesa Choi Young-soon (Cindy Cheung) quando Cleveland a apresenta ao crítico de cinema Harry Farber (Bob Balaban).
Sr. Leeds (Bill Irwin) é apresentado em um plano fixo, com Cleveland e Farber desfocados em primeiro plano.
Reggie (Freddy Rodríguez) surge numa seqüência sem cortes, no qual Shyamalan apenas usa uma “câmera na mão” para mostrá-los, passando de um para outro no plano.
Da Sra Bell (Mary Beth Hurt) vemos apenas um plano de detalhe do tapete de seu apartamento, que também revela sua paixão por gatos.
Continuando com os amigos que passam o dia discutindo sobre assuntos variados, em uma sequência sem cortes que termina com Cleveland pegando o lixo ao lado da porta.
Logo após se despedir de Farber, Cleveland volta para seu quarto e adormece - vemos apenas a TV ao fundo que revela acontecimentos do mundo lá fora do hotel.
Então, ele acorda e pega algo próximo à janela que dá para a piscina do hotel. Com Cleveland desfocado em primeiro plano, Shyamalan chama atenção para o que ocorrerá ao fundo, dentro da piscina.
Ao se abaixar, vemos Story pela primeira vez que passa rapidamente na piscina. Esse plano é o campo, que antecede o primeiro contracampo que vem logo a seguir.
Assim, temos o primeiro recurso de campo e contracampo, que já indica a existência de alguma ligação entre os dois.
Cleveland sai do quarto e tenta descobrir o quê estava nadando na piscina.
Mas acaba escorregando e fica desacordado.
Story o salvo e leva-o de volta ao quarto. Cleveland desperta e olha em direção ao chão, o que vem a ser o campo.
Na cena seguinte vemos o plano subjetivo de Cleveland vendo o rastro que Story deixou, que é o contracampo.
Corta novamente para ele que olha em direção a Story, o que novamente é o campo.



