terça-feira, 25 de março de 2008

Um Lenço para Godard

Reza a lenda que o cineasta Jean-Luc Godard sempre chora quando assiste o reencontro de Ethan Eswards (John Wayne) e Debbie (Natalie Wood) no final de Rastros de Ódio (The Searches, 1956), de John Ford. Recordo que quando vi a obra-prima de Ford pela primeira vez, aos 16 anos, achei um mero filme de estúdio, feito por um mero funcionário, com meras convenções de Western. Alguns anos depois, quando devorei quase todos os livros dos críticos franceses François Truffaut e Andre Bazin, reencontrei com a obra de Ford. Nunca foi tão bom estar enganado e cego.

Howard Hawks, Jean Renoir e John Ford foram os maiores diretores que surgiram desde formação da indústria do cinema americano, década de 20 do século passado, passando pelo auge do sistema de estúdios, décadas 30 e 40, indústria essa dominada na época pela MGM, Warner, Paramount, RKO e Fox. Para o espectador comum, não é tão simples assim perceber a diferença de um Clarence Brown e Henry King para um Ford. Mas as diferenças são gigantescas. Ford era um dos poucos diretores que conseguia fazer filmes pessoais e autorais mesmo seguindo as exigências de mercado.

A seqüência de Rastros de Ódio que mostro neste post é exatamente a que tanto emociona Godard. São cenas como essa, ao mesmo tempo técnicas e singelas, que diferenciam Ford dos meros funcionários de estúdio. Vamos lá.

Texas 1868, Ethan retorna para casa do irmão – acho esse início tão impactante quanto o final, pois já vemos um Ethan errante, cansado e solitário.


No reencontro com a família, Ethan carrega Debbie nos braços, sua sobrinha caçula que será levada pelos índios. Evento esse que acaba sendo o principal cerne do filme: a jornada obssesiva de Ethan a fim de encontrar Debbie ainda viva.

Percebam que a panorâmica para cima é mais para reenquadrar um plano mais aberto à cena.



Quando Ethan finalmente reencontra Debbie ainda viva, quase no final do filme, morando com os índios, ele está decidido a matá-la por acreditar que agora é uma comanche.



É então que a repetição da panorâmica para cima, igual a do início, adquire sentido e poesia, resolvendo o conflito de Ethan, pois Debbie apesar de parecer como uma comanche, será sempre aquela garotinha que ele carregou no começo do filme.



Porém, há sempre um preço a pagar por não ter criado raízes, por ter sempre levado uma vida errante e solitária. Não há lugar para Ethan na volta para casa.

A câmera, primeiramente, seguindo a família para dentro da casa e deixando Ethan fora, faz um travelling para trás.

Sem cortar, ao fundo, vemos o restante da família saindo à esquerda do enquadramento até entrar dentro da casa.

Ethan está sozinho. Exatamente onde o enquadramento o deixou. “Não há casa nem família esperando por Ethan. Ele está amaldiçoado. Da mesma forma como amaldiçoou o comanche morto. É um errante, condenado a vagar entre os ventos", define Martin Scorsese.



Acho que vou ficar com o lenço do Godard.

Breno Yared