sábado, 22 de março de 2008

Faça-se a luz!

Não sei como descrever o que acabei de ver. Ainda estou assustado. Eu e o meu pai acabamos de chegar do Grand Café do boulevard des Capucines, onde assistimos imagens ampliadas por uma máquina chamada cinematógrafo. Meu pai disse que o nome do que vimos era L'Arrivée d'un train en Gare, feito por dois homens: Louis e Auguste Lumière - acho que escreve assim o nome deles.

Estava tudo escuro na sala. Quando de repende, surgiu uma imagem em nossa frente de pessoas caminhando em uma estação de trem banhada pela luz do sol. Assustadoramente, o trem veio em nossa direção. Apenas fechei os olhos e fui puxado rapidamente pelo meu pai, escutava pessoas gritando e correndo. Quando finalmente abri os olhos já estávamos fora do Grand Café. Não sei o que aconteceu, não sei se alguém foi pego pelo trem. Só sei que vou pedir ao meu pai para voltar lá amanhã. Quero saber o que aconteceu com o trem e sentir aquela emoção novamente.

O relato que acabei de descrever poderia ter sido tirado do diário de algum adolescente escrito em 28 de dezembro de 1895, em Paris, logo após a sessão de Chegada do Trem à Estação (L'Arrivée d'un train en Gare). Devaneios à parte, esse é, de certa forma, o surgimento da mise en scène. Mesmo que os irmãos não estivessem preocupados com rigor e composição de enquadramento, foi o nascimento de um novo princípio estético no cinema.

“Para construir uma mise en scène, o diretor tem de trabalhar a partir do estado psicológico dos personagens, através da dinâmica interior da atmosfera da situação, e reportar tudo isso à verdade do fato diretamente observado e à sua textura única”, diz Andrei Tarkovski, no livro Esculpir o tempo. Basicamente, a mise en scène precisa encenar, direcionar o olhar do espectador para isso, gerar o movimento como emoção. Tudo isso a partir do posicionamento dos objetos e personagens na composição estética do enquadramento.

No Blog, não me irei ater, no momento, em esmiuçar como foi construída a mise en scène ao longo do tempo no cinema ou defini-la apenas através de conceitos e etimologia. E não escreverei apenas sobre mise en scène, mas também sobre a técnica cinematográfica em geral. A proposta é ser o mais analítico possível, chega de intérpretes de mensagens. Darei mais ênfase às imagens, não ao texto em si. Tentarei mostrar diretamente nos filmes a técnica, o movimento, a emoção, a paixão, o amor pelo cinema. Como o blog de um cinéfilo, não de um crítico. Sejam Bem-vindos!

Breno Yared