Afinal, quem é o verdadeiro autor de um filme? Do surgimento da sétima arte, final do século XIX, até a década de 50 do século passado, não se restringia o trabalho autoral de um filme à uma única pessoa, no máximo ao trabalho do produtor. O cinema sempre foi uma arte “sem autor”, feita coletivamente, com centenas de pessoas envolvidas na produção. Mas será que não existe um homem por trás da câmera que impregna sua visão de mundo na película?
Nas artes em geral – fora a sétima -, não é preciso dizer quem é o autor. Na capa de um livro, no encarte de um cd, estão lá o nome do autor e sua obra. Até que uns tais franceses, idealizadores da Política dos autores nos Cahiers du Cinema, liderados pelo crítico André Bazin, redefiniram o trabalho autoral num filme. “Se hoje todos conhecem o 'Hitchcock presents' é graças a nós. Pegamos o nome do autor cá em baixo e pusemo-lo lá em cima. E dissemos: 'É ele que faz os filmes’”, afirmou Jean Luc Godard.
Em seus textos, Bazin já formulava o que seria a Política dos Autores. Mas foi apenas em 1955, no artigo que dá nome ao título deste post, acerca do filme "Ali Babá e os Quarenta Ladrões", de Arthur Lubin, que François Truffaut cunhou o pilar da Política dos Autores, defendendo a idéia de que os filmes deveriam ser julgados pela encenação, pela forma, não apenas pelo conteúdo, e afirmando: o diretor é o único e verdadeiro autor de um filme.
Truffaut também propôs analisar a obra do diretor como um todo - como fizeram com Nicolas Ray, Charles Chaplin, Orson Welles, Alfred Hitchcock, John Ford, Fritz Lang no cinema americano -, pincelando características em comum entre seus filmes, não os julgando separadamente, mas como se fizessem parte de um projeto de cinema, como se o diretor fizesse sempre o mesmo filme, mudando apenas alguns elementos sem modificar a unidade. O que também acontece quando se analisa trabalho artístico em outras artes.
Na música, por exemplo, ninguém precisa dizer que Chico Buarque faz “música de autor”. Está implícito que ele é o autor. Tem estilo inconfundível, com músicas rigorosamente bem construídas como poemas que viram canções. Como na construção de “Construção” (1972), composto por decassílabos que terminam com proparoxítonas, casando perfeitamente forma e conteúdo. Rogério Duprat compôs os arranjos, contando ainda com a participação do grupo MPB-4, mas ninguém tem dúvida de quem é o autor.
Na literatura – arte “solitária” -, é ainda mais evidente quem é o autor da obra. Clarice Lispector tem um estilo aparentemente simples na escrita, introspectivo, carregado de nuances. No livro “Os Laços de Família”, os contos não seguem estruturas narrativas convencionais, Clarice conta “histórias sem histórias”, mostrando uma sociedade doente, imersa em rotina e no artificialismo das convenções sociais. Mas o que torna a obra de Clarice atemporal, é a forma, o seu estilo, de onde aflora o verdadeiro conteúdo da obra da autora.
“Diz-se hoje Chaplin como se diz da Vinci. Ou melhor diz-se Charlot como se diz Leonardo. E não há mais bela homenagem a prestar a um artista de cinema", palavras de Godard. Não foi culpa dos Cahiers se o termo virou apenas “grife”: ora usado para mostrar que o produtor era o autor, ora usado para um “cinema de arte”, ora usado na indústria dos blockbusters americanos. Bom ou ruim, no cinema dito autoral, o filme sempre se parecerá com o diretor. No próximo post, continuo a escrever sobre o cinema de autor.
Breno Yared


8 comentários:
Concordo que todo grande filme carrega a marca de seu diretor. Mas aredito também na "maionese baziniana": diversos profissionais inspirados e as condições ideais podem resultar em coisa boa.
Cada filme é um filme.
Também concordo contigo, Miguel. Nem todo grande filme é um filme de autor. O recente "Batman - O Cavaleiro das Trevas", tá aí para provar.
Abraço!
De fato.
Sem falar naquele filme que nós amamos: Antes do Pôr-do-sol.
Alguns amigos falam que a grandeza do filme está num tipo de "direção invisível" do Linklater.Isso pra mim é forçar política dos autores goela abaixo do filme. É uma obra-prima sem autor, ou melhor com um monte de autores. Um caso delicioso de maionese baziniana.
Abração!
Eu acho os filmes de Linklater extremamente pessoais, Miguel. Principalmente “Antes do Amanhecer”, “Antes do Pôr do Sol” e “Escola de Rock”. Não acho que sejam maioneses. A teoria do Bazin funciona melhor com filmes de estúdio. Tudo bem que a Delpy e o Hawke ajudaram a criar os diálogos, mas, se eu não me engano, a idéia do filme surgiu de uma experiência pessoal de Linklater, parecida com o primeiro filme, num desses festivais de cinema. Mas concordo contigo que é bobagem citar a política dos autores para defender o belíssimo “Antes do Pôr do Sol”, por exemplo. A política dos autores, atualmente, funciona melhor para defender os filmes de Shyamalan, James Gray, Bong Joon-Ho.
Breno, queria propor que vc comentasse um pouco mais sobre a politica dos autores retomando uma discussao que houve alguns posts atras. Se nao me engano, em um post sobre Fim dos Tempos, onde alguem descreve uma sequencia de Dawson´s Creek e voce discorda que seja "autoral".
É verdade que numa série de tv, os episodios dependem mais do trabalho dos roteiristas e mais ligados a uma visao geral que os criadores da série em questão têm. E, como vc enfatizou, nem ficamos sabendo o nome do diretor do episodio.
Mas ali está o trabalho de um cara, que tem toda uma concepçao da linguagem cinematografica , que ainda que esteja subordinado ao roteiro e interesses de outros, certamente traz uma visao sua, "contrabandeia" algo seu, que talvez possa ser identificado em outros episodios/series/projetos que trabalhou sob encomenda.
E aí pergunto: só ha autor quando do lado de cá há uma plateia que o reconheça? E o que diferencia a autoria de um estilo? Nao dá pra dizer que o Michael Bay, por exemplo, é um autor (afinal, é facil identificar "um filme de Michael Bay)?
Acerca da cena de “Dawson´s Creek”, que o Felipe citou no post sobre “Fim dos Tempos”, Helio, não dá para eu comentar especificamente sobre, porque não vi. Se mais alguém tiver visto ou tem o link com a cena no youtube, deixem aqui.
Quando comentas sobre o diretor como “contrabandista”, não existe “contrabando” pela forma, só pelo subtexto. Pelo menos se analisarmos de acordo com termo citado por Martin Scorsese no documentário “Uma Viagem Pessoal Pelo Cinema Americano”. É só ver os filmes do mestre do “contrabando” no cinema americano, Samuel Fuller. A cena de perseguição – o set piece - espetacular no final de “House of Bamboo” não é “contrabando”, é estilo; já o homossexualismo no subtexto de “Matei Jessé James”, é.
Tentarei comentar mais sobre a Políticas dos Autores no próximo post. O termo foi cunhando a partir da mise en scène, sendo uma forma de identificar o verdadeiro autor de um filme, mas pode ser ampliado. Acredito que autoria é acima de tudo estilo. Quanto ao Micheal Bay, ele se enquadra no último parágrafo do meu post: é apenas uma “grife”, “ora usado na indústria dos blockbusters americanos”.
Abraço!
Ali Babá e os 40 ladrões, muito dinheiro tinham pra contar
Mas o meu amo é bem mais feliz, os seus desejos vou realizar.
É um lutador que tem a força, e muita munição pra gastar,
Tem soco forte, PIMBA! Que nocaute! É só pegar a lâmpada e esfregar.
— O que deseja?
Pode pedir Senhor, é só pedir pra mim
Faça o seu pedido, eu anoto
Nunca teve um amigo assim
;D
\o\o\o\o\o\o
Um viva para o youtube!
http://www.youtube.com/watch?v=FyIz164zF3c
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