segunda-feira, 15 de setembro de 2008

O Tamanho das Imagens (parte 3)

Close up-plano geral. Nada melhor que planos de tamanhos opostos – menor-maior -, para mostrar o tamanho das imagens como função dramática no cinema. Como nos exemplos que mostro, aqui, em A Vila (The Village, 2004), de M. N. Shyamalan, e Zodíaco (Zodiac, 2007), de David Fincher.


Para começar, o sublime close up do rosto de Ivy Walker (Bryce Dallas Howard) pedindo ao seu pai Edward Walker (William Hurt) para ir às cidades em busca de medicamento a fim de salvar Lucius Hunt (Joaquim Phoenix), que foi esfaqueado pelo retardado da vila, Noah Percy (Adrien Brody).


Ivy ama Lucius. E o tamanho da imagem tem o exato significado desse amor. Tudo em volta se torna insignificante. Nem vemos o rosto de Edward, só escutamos sua voz. Ficamos apenas com o rosto de Ivy que preenche magnificamente o enquadramento. O close up como amor.






No filme de Fincher, o plano geral do cartunista editorial Robert Graysmith (Jake Gyllenhaal) nos dá a sensação de desamparo. Funciona como uma cena de transição. A partir deste momento, Robert é o único que ainda acredita em encontrar o assassino serial Zodíaco.

A encenação da cena em profundidade de campo consiste em Robert vindo do fundo conversar com o inspetor Dave Toschi (Mark Ruffalo) sobre o caso do assassino. David está sempre ao centro do enquadramento.





Dave vai embora. Assim David está sozinho. De braços cruzados. Abandonado. O plano geral como desamparo. Fade out.








Close up-plano geral. Menor-maior. As escolhas devem depender sempre da eficácia dramática. Precisam ter o exato tamanho da emoção que o diretor quer deixar impressa no enquadramento. Se no filme de Shyamalan o close up representa o amor, no filme de Fincher o plano geral representa o desamparo. Planos de tamanhos opostos, mas que mostram perfeitamente a emoção contida neles.

Breno Yared


4 comentários:

Pietro Impagliazzo disse...

Interessante postagem sobre motivação de uso dos enquadramentos.

Breno Yared disse...

Valeu pela visita, Pietro!

Bruno disse...

Gostei da postagem. Ao meu ver a cena com a Bryce tem um significado diferente do que você falou. Para mim o diretor coloca em evidencia o semblante da personagem para mostrar uma mudança nos demais personagens. Ela começa a cena séria olhando fixamente para a câmera e nossa atenção esta nela, depois ela distancia o olhar numa espécie de choro e a atenção vai para o pai dela que tem que quebrar o pacto e ceder a emoção para salvar o namoradinho da filha. Depois, se nao me engano, a cena vai para o pai discutindo o que pode ser feito pelo rapaz.
Acho muito lecau o diretor ter colocado isso como se os personagens importantes tivessem que passar por uma auto analise.

Enfim, você pode discordar mas, apesar de ser algo bem técnico, a sequencia passa pela subjetividade de cada um de forma diferente e mesmo alguem que não entenda patavinas de linguagem cinematográfica pode "sentir" a cena dado que a linguagem age até (ou talvez mais) sobre aqueles não conhecem seus mecanismos.

Breno Yared disse...

Concordo contigo, Bruno. Outra interpetração: talvez o Shyamalan tenha construido a cena, apenas com close up, por estilo; já que o normal seria uma cena construida com campo e contracampo.

Também concordo que não é preciso entender de linguagem cinematográfica para apreciar cenas com as que citei neste post. Basta sentir.

Abraço!