sexta-feira, 29 de agosto de 2008

O Tamanho das Imagens (parte 2)

O cineasta inglês Alfred Hitchcock afirmava que só seria possível expressar a emoção exata de uma cena de luta através da decupagem. Mostrando, principalmente, as partes: as mãos que se agitam, as pernas, o rosto dos oponentes, o movimento. Imagens menores. Comprovou sua teoria em vários filmes, como na sequência em que o assassino de Janela Indiscreta (Rear Window, 1954) enfrenta Jeff (James Stewart) no clímax.





M. Night Shyamalan, em Corpo Fechado (Unbreakable, 2000), mostra que às vezes os discípulos podem surpreender seus mestres, no caso Hitchcock. Quando David Dunn (Bruce Willis) enfrenta o assassino que invadiu a casa de uma família, Shyamalan não utiliza a decupagem, mas o plano-sequência.

O primeiro plano é um close up das mãos amarradas de uma das reféns do assassino.

Então vemos o único corte antes da cena de luta. David surge por trás do assassino.


Ao contrário do que pode parecer, a câmera não está passiva durante a ação, ela encena. Direciona-se do menor para o maior, com um sutil movimento para cima até ficar em plongée, seguindo a lógica que descrevi no post anterior: o tamanho das imagens como função dramática.





Pontuado pela marcação da trilha sonora, som e mise en scène - não pela decupagem -, Shyamalan imprime ritmo e ação igual como Hitchcock conseguiu em Janela Indiscreta, mas com estilos diferentes.

Três anos depois do filme de Shyamalan, em Oldboy (2003), o cineasta coreano Chan-Wook Park parece seguir o mesmo caminho optando em não decupar na sequência em que Oh Dae-Su (Choi Min-Sik) luta contra os capangas do grupo que o aprisionou misteriosamente por quinze anos em um quarto.

Basicamente, o que difere, aqui, de Corpo Fechado é a câmera que se posiciona sempre no mesmo lugar e tamanho, em um plano geral mais aberto, seguindo os passos do protagonista com travellings para esquerda e direita. E se Shyamalan optou em encenar do menor para o maior, Park já começa no maior.










“Então, se quiser mostrar dois homens lutando entre si, você não conseguirá nada que preste se fotografar simplesmente essa luta”, disse Hitchcock. Mas o que é simplesmente fotografar? Park e Shyamalan mostram que Hitchcock se equivocou com essa afirmação, nem sempre é preciso decupar para que o público “entre na briga” e sinta. A câmera pode fazer tudo o que o diretor quiser, conseguindo o mesmo efeito com formas diferentes. Nada é definitivo na sétima arte. Ainda bem.

Breno Yared

6 comentários:

Rodrigo Castro disse...

Pô finalmente, algo que conversamos há anos tu viu por um ponto parecido com o que penso: autores têm o seu estilo de trabalho e nenhum pode servir de exemplo para nenhum outro.

Outra coisa que merece destaque nesse post: duas cenas diferentes entre si e que na minha opinião são chave para ambos.

Esta cena de Corpo Fechado, até hoje me emociona, por vários motivos: seja pela naturalidade com que ela é feita - o super é um detalhe - pela trilha sonora fabulosa e pela direção de atores que não possui exageros - algo comum em filme de heróis.

Já a cena de Old Boy é um caso a parte e não tão distante de Corpo Fechado por um queisto: se busca a naturalidade da formação do personagem. Mostrando que ali naquele momento ele se tornou o seu novo eu - lembrando que exatamente esta cena, foi escolhida por muitos diretores como sendo uma das cenas de lutas mais bacanas do cinema daquele ano.

Breno Yared disse...

Além do mais os três filmes têm estilos diferentes, Rodrigo. Jamais caberia decupagem na que citei em "Corpo Fechado". O filme de Shyamalan é puro jogo de encenação. Talvez em "Oldboy" desse.

Eu também sempre me emociono com a cena de luta de David em "Corpo Fechado". Às vezes coloco o DVD só para vê-la repetidamente. A marcação dos atores no cenário casado brilhantemente com a trilha sonora é de arrepiar.

Concordo com o teu comentário: as cenas de luta dos filmes de Shyamalan e Park também são de construção de personagem: "mostrando que ali naquele momento ele se tornou o seu novo eu", serve para David e Oh Dae-Su.

O interessante é que mesmo Hitchcock sendo uma clara influência para Shyamalan, este não é um mero "imitador" daquele. Consegue impor um estilo próprio.

Fernando Segtowick disse...

Fala Breno,
Obrigado pelos parabéns e quero te dizer que adoro essa sequência do Oldboy. Corpo Fechado, não precisa nem falar.

Breno Yared disse...

As de cenas de luta de "Corpo Fechado" e "Oldboy" são umas das melhores do gênero nos últimos anos, Fernando. Abraço!

Pietro Impagliazzo disse...

O interessate é que foi exatamente um filme de Hitchcok (Vertigo) que fez Chan-wook Park decidir se tornar um diretor.

Oldboy é um dos filmes que eu mais gosto e é uma aula de direção.

Bom post, vlw.

Breno Yared disse...

Acho que quase todos os diretores contemporâneos foram influenciados por Hitchcock, Pietro. O gordinho inglês e Scorsese são os meus diretores preferidos.