sexta-feira, 22 de agosto de 2008

O Tamanho das Imagens (parte 1)

Grande. Média. Pequena. Qual tamanho uma imagem deve ter? Alfred Hitchcock afirma no livro Hitchcock/Truffaut: Entrevistas que “é sempre a questão de escolher o tamanho das imagens em função dos objetivos dramáticos e da emoção, e não simplesmente com a finalidade de mostrar o cenário”. É pôr em cena ou ocultar qual parte e tamanho serão encenados no enquadramento.


“No início da cena, filmei o homem bem de perto, entrando, e a porta se fechando; ele se dirige a uma mesa, mas não mostrei todo o cenário”. Essa é a descrição de uma delegacia através da câmera de Hitchcock, filmada em um programa para a televisão. Mas se estamos em uma delegacia, por que não mostrar o todo?


“Para quê? Temos o sargento de polícia com três galões no braço e que aparece na abertura da imagem, basta isso para estabelecer que estamos em uma delegacia. O Plano geral poderá ser mais útil num momento mais dramático, por que desperdiçá-lo?”. Eis a questão: o desperdício de imagens. A maioria dos diretores atuais não são rigorosos, mas sim desleixados. Filmam o desnecessário.


Em Corpo Fechado, M. Night Shyamalan é coeso: nas cenas de transição, só mostra parte do cenário que é dramaticamente útil, não desperdiça nada. Como na cena do trem que basta a janela à direita, duas poltronas e o uso do som para estabelecer onde as personagens estão.



Logo após o trem de David Dunn (Bruce Willis) descarrilar, ele acorda no hospital: só precisamos de dois enfermeiros – ou médicos – em primeiro plano, fora de foco, cuidando de um dos pacientes do acidente e outro médico conversando com David - que está sentado no leito -, ao fundo, para estabelecer o lugar.

O sangue que começa a aparecer da personagem deitada no leito, em primeiro plano, é a deixa para o sutil movimento de câmera para frente que atesta o emocional de David.



A cena anterior à seqüência em que David testa seus “poderes” levantando peso no porão de casa, vemo-lo chegando de ônibus.

Corta para um plano geral de localização onde vemos a praça que Joseph chamará David – lugar esse que terá importância na conversa entre os dois.

No jogo de lente com alternância de foco, seguindo o movimento dos atores e do que é dito nos diálogos, a câmera se posiciona fixa na praça, tendo os dois ao fundo. No exato momento em que David e Joseph começam a falar do jogador de futebol americano – aquele que a moça no trem ia visitar -, ele entra no enquadramento.

A alternância mostra o que David poderia ter sido com uma carreira promissora de jogador e o que ele se tornou com as escolhas que fez.



Voltando então para David e Joseph.

Joseph acredita que sendo filho de David, também tem super poderes como o pai. O que acaba acarretando em uma briga na escola, onde David é chamado para buscar o filho. Há dois momentos interessantes aqui.

Primeiro: Shyamalan mostra apenas um corredor, o lugar onde a diretora fica e o pátio onde vemos desenhos pintados como brincadeiras no chão para identificar que estamos na escola de Joseph.



Segundo: em toda a cena, o único momento em que vemos o rosto da diretora é no plano subjetivo de Joseph olhando para David e ela sentados; corta, e ao invés de decupar o campo e contracampo entre os dois, a câmera se posiciona atrás da diretora, pois David não lembra que foi ela quem o salvou - quando ele era criança e estudava na mesma escola de Joseph - do afogamento na piscina.


A partir do exato momento em que a diretora começa a relembrar David de como foi o afogamento, a câmera vai fechando até bloqueá-la no enquadramento. Ele não lembra do seu rosto, não é dramaticamente útil mostrá-la, mas sim a lembrança através da expressão de David.




Quando David vai testar seus poderes na estação, é a primeira vez que o vemos entrando em um lugar que podemos visualizar o todo em plano geral. É um dos momentos mais importantes do filme: a proporção da imagem tem o exato tamanho e importância do emocional de David ali.




Todos aprendem quando criança que não se deve deixar resto de comida no prato, só botar o que é suficientemente necessário, evitar o desperdício. Assim deveria ser com os diretores: não desperdicem imagens, usem apenas a parte necessária delas. Afinal, o único lugar das sobras é ir para o lixo ou virar alimento do cachorro de estimação da casa. As lições de Alfred Hitchcock estão todas aí para serem usadas, mas parece que são na maioria das vezes ignoradas.


P.S: Mas nem sempre Hitchcock tinha completa razão, mostrarei o porquê no próximo post.

Breno Yared

3 comentários:

Paulo disse...

Muito interessante o seu texto Breno, o mais legal de tudo eu que você inseriu os quadros dos filmes como exemplo.

Anônimo disse...

espero ansioso o proximo post... o Max tem uma interpretação para o sangue em primeiro plano na cena do hospital.. n lembro direito ql eh.

Mateus.

Breno Yared disse...

Paulo,

Valeu pela visita! As screenshots quebram um tremendo galho na hora de escrever, assim não fica um calhamaço de texto. E dão uma oportunidade melhor de escrever um texto mais analítico. Abraço!

Mateus,

Então pede ao Max postar aqui ou tu mesmo. Deve ser interessante. Eu vejo como se fosse uma lembrança de David do acidente, já que ele estava meio confuso naquele momento. É uma intereção entre o primeiro plano e o fundo do quadro.