Segunda-feira, 14 de Julho de 2008

A Travessia de Shyamalan

A polêmica sobre “Fim dos Tempos”, de M. Night Shyamalan, continua aqui no blog. Depois de ler o comentário do meu amigo Rodrigo Castro, no tópico “The Happening”, resolvi publicar neste espaço mais um ponto de vista sobre o filme, o belo texto do colega Adolfo Gomes, publicado originalmente no blog da ACCPA ( http://accpara.blogspot.com ).


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A Travessia de Shyamalan


É do cinema tornar visível as coisas, os seres. Até mesmo quando não é possível mostrar mais do que rastros, vestígios dessa ausência, é preciso encontrar um corpo, um módulo ou um formato de expressão. “Fim dos Tempos” (The Happening), do cineasta de origem indiana M. Night Shyalaman, é parte desse desafio do cinema em lidar com o invisível. E Shyalaman o enfrenta com a mesma fé com que Moisés separou o mar vermelho para sua travessia.


Trata-se de acreditar nas imagens, o que nos dias de hoje equivale a reescrever as leis, voltar ao “antigo testamento” do cinema, segundo o qual reza um mandamento inaugural: filmar a natureza e os objetos como iguais. Mais do que índice de presença ou até mesmo signo, é por meio deles que se opera a arte, o milagre de se modular o que não tem forma definida. O vento, por exemplo, que inspirou o clássico de Victor Sjöstrom, tinha a areia lancinante sobre o corpo de Lilian Gish, casas e estradas para lhe atestar uma existência cinematográfica.


No filme de Shyalaman, o vento tem um papel importante. Parece ser o centro gravitacional de sua poética, quer pelo que evoca de belo como de assustador. Mas a travessia a que ele empreende não seria segura, não fosse pelo anel, a planta de plástico, o prendedor de cabelo, o cortador de grama e os outros incontáveis objetos que lhe indicam o caminho.É mais do que uma ontologia dos objetos, porque para além das suas respectivas naturezas e finalidades cada um deles agrega novas possibilidades, funções, cadeias de ações e sentidos.


Na notável cena entre Mark Wahlberg e a jovem Ashlyn Sanchez (Jess), logo após a menina mergulhar na apreensão da perda definitiva dos pais, há o anel do protagonista, cuja pedra que o enfeita acredita-se capaz de expressar os sentimentos, mas que aqui, antes de diagnosticar, produz um estado de espírito. O professor de ciência (Wahlberg) arranca um sorriso à criança em meio ao terror, pura e exclusivamente graças a esse apetrecho. Estamos no domínio da metáfora e o que é mais belo: ela ainda é possível no cinema.“Fim dos tempos” se inscreve na tradição dos filmes tácteis de Hollywood, de “Desejo Humano”, de Lang; à “Cinzas que queimam”, de Nicholas Ray; nos quais tudo em cena evoca a presença, a trilha, o afeto humano, sem necessariamente enquadrar homens, mulheres, crianças na perspectiva da câmera.


O fora de campo, é consciência da arte, aqui como acolá - quer dizer: naqueles tempos. Pois se a destruição imposta pelo homem à natureza e vice-versa, no caso do happening do filme, é mais do que visível, aquilo capaz de interromper esse processo aparentemente irreversível transcorre nessa fronteira entre a fé e o inexplicável. Ainda assim, Shyalaman nós dá evidências: um campo entre duas casas, o vento soprando, um homem e uma mulher que já não têm dúvidas sobre o amor que sentem. Esse encontro pôs fim à destruição, à ameaça (in)visível?Não cabem respostas fechadas... Como dizia Jean Cocteau, "não existe o amor, só existem provas do amor". E Shyalaman parece concordar com essa assertiva.

Adolfo Gomes

11 comentários:

Rodrigo Castro disse...

Fiz esse comentário há dois posts abaixo, mas sei que muitos não irão ler, por não ser o do dia. Assim, o posto novamente e dentro daquele contexto.

Há algo de interessante quando se fala de filmes: histórias. Uma história move um filme, principalmente se você se utiliza dessa arte - que sejamos francos, nasceu popular e apesar dos preços se mantêm sim, com esse fundamento de existência.

O que mais achei interesante é que não vi no artigo do Breno - meu xapa há anos - e nem nos comentários de quem aqui o fez, falando bem, sobre a história (de Fim dos Tempos) que é com certeza o pior argumento de Shyamalan.

Se ele pretende fincar os pés no lance de que é um autor, ou um verdadeiro diretor de cinema que "coitadinho" trabalha para os mal-feitores de Hollywood, que vá fazer filme longe disso.

Ser um leitor de livros, amar a arte, saber sobre a técnica, não faz de mim, ou de qualquer um aqui, pessoas que nao devem ouvir uma contra-parte. Pelo contrário.

Daí dizer que a forma merece ser exaltada por sua técnica e em nenhum momento analisar de forma fria - longe de fanatismos (o de ser fã que fique claro) - um roteiro pífio e muito, mas muito mal escrito é zombar de si mesmo.

E para piorar: pergunte para o Shyamalan se ele nao gosta de que as pessoas, todas, vejam seus filmes. Pergunta prele se seria do seu agrado que somente os entendidos falassem ou os assistissem?

A resposta, é a mesma se você se fizer outra pergunta: "Quantas pessoas leram o que eu escrevi no meu blog". Artista que nao quer ser adorado nao existe. Ele tá em mal fase sim, é um grande diretor sim, mas fez um filme ruim.

E por causa disso o mundo vai mudar? Claro que não. As pessoas que não viram/perceberam a "grande técnica", não entendem nada de cinema? Isso é ser um entendedor?

Cultura nao é riqueza pessoal. É um bem para ser compartilhado e sim, nossos ídolos tem pés de barro - ainda mais hoje em dia. Então podem chorar e tombar um pouquinho a estátua de Shyamalan, ele pisou na bola sim.

Rod Castro

Anônimo disse...

Rodrigo,

Quem não viu a "técnica" - como você mesmo diz- nos filmes do Shyamalan, realmente não entende de cinema. Apenas isso.Não falamos dessa técnica fria, do tecnicismo barato, falamos do dedo médio que o indiano enfia e digita na tela. Tens todo o direito de achar o filme do cara uma merda. Como o grande John Ford dizia: "a história é um mero ponto de partida"..."Quer mensagem, procure um fax, ou telegrama perto de você"...Não vai me dizer que as histórias do Hitchcock eram maravilhosas? definitivamente não...Um manipulador da unidades cinematográficas, apenas isso. E isso é tudo. Já estou de saco cheio de ver textinho reclamando da história, de atuações, e de toda essa asneira. Sei ouvir uma contra-parte. Acredito que devemos discutir o mau gosto. Começando pelo seu.

Anônimo disse...

...desculpas... esqueci de colocar meu nome.

RAFAEL MENDES

Breno Yared disse...

Mas que história e argumento, Rodrigo? Eu sei que Hitchcock é teu diretor preferido, então te pergunto: existe uma grande história a ser contado em duas das grandes obras-primas de Hitchcock, “Psicose” e “Os Pássaros”? O que tu chamas de argumento e história, o gorducho inglês usa apenas como pretexto em seus filmes, o que ele próprio denomina de “MacGuffin”.

O principal objetivo de Hitchcock era manipular as emoções do público principalmente pela técnica, pelas imagens. Em “Psicose”, ele só se interessou em dirigir por causa do assassinato repentino da cena do chuveiro, em manipular a emoção do público, em matar quem até então acreditávamos ser a protagonista do filme.

A proposta de Shyamalan, em “Fim dos Tempos”, é de um cinema sensorial, um cinema de imagem e simplicidade. Se for avaliá-lo como um “Hulk”, “Speed Racer” e “Nárnia”, não vais entender a forma crítica e brincalhona com que ele trata o cinema blockbuster. Shyamalan não está menosprezando o público, está colocando-o em cheque. Será que esse público ainda consegue se apavorar com o vento?

Atuações ruins? Nunca viste filme B e Bresson? Em “Fim dos Tempos” são intencionais.

Breno Yared disse...

E será que eu preciso dizer que o filme é bom ou ruim, botar umas estrelinhas, dar nota para expressar minha opinião? Acho que não. Escrever sobre cinema é mais que isso. É mostrar ao público um outro olhar para a obra, dar as melhores ferramentas para ele julgue se gosta ou não.

Anônimo Rodrigo disse...

Rafael, não lhe conheço e acho que pela sua postura "sou conhecedor e não dou bola pro que 'mortais que não entendem' tem a dizer”, não me incentiva a ter essa ação. Ainda mais com um texto (inho?) – no mínimo infantil, como o seu.

Segundo: falar que Hitchcock não tem trama ou história em seus filmes é um argumento tão risível e cego – talvez para tentar afirmar a sua teoria perante seus amiguinhos de faculdade e universidade – que você finge não conhecer (poxa, logo você?) filmes como os excelentes "Festim Diabólico", "Um Corpo Que cai" e “Pacto Sinistro”.

“Quer mensagem, vai ler fax?”, e todas essas matérias em revistas científicas que o Breno vem postando aqui, mostrando que o M. Night se importa com os males e coisas erradas que nós seres humanos estamos fazendo com o planeta? Essa foi ótima.

Tá cansado de ler textinho? Engraçado – assim como M. Night se importa sim com o que os outros pensam do filme dele - com certeza você vai ler esse e ainda vai responder, se tremendo de gana para provar o contrário e de forma “inteligente” como só você pode fazer – coff, coff.

E se ser um fodão que manja e vai morrer abraçados com livros de teorias – se você for amigo do Breno e pegou algum deles emprestado com ele, pode até ter sido um dos meus que eu emprestei pra ele – é o seu futuro e por isso o seu gosto é melhor que o meu – é impressionante como as pessoas confundem gosto com o que é bom – passar bem.

E Breno, adoro você meu velho, mas ri – sem desprezo – de uma coisa interessante, nas suas palavras: “será que eu preciso dizer que o filme é bom ou ruim, botar umas estrelinhas, dar nota para expressar minha opinião”.

Pois só fui visitar o teu blog, para dar uma olhada no que você achou desse filme do M. Night Shyamalan, graças ao teu nick no MSN: “’Fim dos Tempos’ é o melhor filme do ano” – podia até mesmo vir na capa do DVD com teu nome na seqüência.

E concordo com uma coisa no que você escreveu na continuação do que citei no parágrafo anterior: dar ferramentas não é dizer o que eu quero que você veja e nem sempre o que o leitor vê é o que eu vejo e isso se chama respeito pelas opiniões – que são diferentes de gostos.

Anônimo disse...

Conheci o blog do Breno através do link do blog do Passarinho. Moro em Castanhal. Rodrigo, chegue mais perto do cinema, livros não servem para "nada". Quando o assunto é cinema o que importa é ver mais cinema. Tenho certeza que tu não amas a sétima-arte. Temos que nos dar valor, o teu valor é dizer que você não ama o cinema.
RAFAEL

Rodrigo disse...

E o seu é julgar as pessoas que não conhece. Assim como o "seu cinema e bom gosto".

Obs.: Adoro a sua síntese depensamento.

Breno Yared disse...

Calma lá, Rafael, que o Rodrigo é meu amigo e também tem anos de cinema. Mais importante do que dizer que fulano entende ou não de cinema, é discutir "Fim dos Tempos".

Anônimo disse...

...Certinho, Breno. Em seu respeito me retiro. Minha síntese está cansada...

RAFAEL

Anônimo disse...

...Certinho, Breno. Em seu respeito me retiro. Minha síntese está exausta

RAFAEL