Quarta-feira, 2 de Julho de 2008

A Beleza da Simplicidade

"O que eu acho é que só temos nossas próprias categorias e rótulos para julgar as coisas. Aquilo que não vemos, em qual das nossas oito categorias (ou mais) poderia se enquadrar? Tudo aquilo que não se encaixa muito bem é classificado meio de qualquer jeito. Como inventamos essas categorias, é tudo muito limitado. Psicologicamente, se você está procurando alguma coisa em seus dados, você encontrará. Se estiver fazendo uma experiência em busca de padrões e diz “Achei! Eu consigo vê-lo!”, é a mesma coisa, é como se você estivesse dizendo que 'há sempre uma explicação para tudo bem ao nosso alcance' – e sempre damos um jeito de enquadrar o assunto em questão."


Sobre o que vocês acham que M. N. Shyamalan está falando no parágrafo acima: a concepção do seu próprio cinema ou suas inspirações ambientais e científicas? Transcrevo aqui no blog a entrevista que o diretor concedeu à revista “Scientific American Brasil”, com o título “Eu Vejo Pessoas Condenadas”, por George Musser, e vejam a surpresa.


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SHYAMALAN: Você viu ontem no New York Times um artigo sobre plantas falando com outras plantas? Estava na capa do Science Times! Mal pude acreditar!

MUSSER: A vida imita a arte... Também publicamos um artigo de Robert Sapolskyhá alguns anos que fala como os parasitas afetam o comportamento dos animais e, por fim, os leva a cometer suicídio. Isso também é a vida imitando a arte. Há um trecho do artigo que relaciona o caso desses animais ao filme. “Isso é semelhante a uma pessoa ser infectada por um parasita cerebral que... gera um desejo irresistível de ir ao zoológico, pular as grades e beijar um urso polar.” Esses são os parasitas na natureza que subvertem e colocam o instinto de sobrevivência contra o animal. Nesse caso, eles afetam roedores e acaba com o medo que eles têm dos gatos. É por isso que grávidas não podem nem chegar perto das caixinhas de areia dos felinos.


SHYAMALAN: Uau, isso é fascinante!

MUSSER: Uma coisa que sempre quis perguntar é o que você acha sobre os limites da ciência. Está claro que a você pensa muito nisso; aparece no começo do filme e também no finalzinho.

SHYAMALAN: O que eu acho é que só temos nossas próprias categorias e rótulos para julgar as coisas. Aquilo que não vemos, em qual das nossas oito categorias (ou mais) poderia se enquadrar? Tudo aquilo que não se encaixa muito bem é classificado meio de qualquer jeito. Como inventamos essas categorias, é tudo muito limitado. Psicologicamente, se você está procurando alguma coisa em seus dados, você encontrará. Se estiver fazendo uma experiência em busca de padrões e diz “Achei! Eu consigo vê-lo!”, é a mesma coisa, é como se você estivesse dizendo que “há sempre uma explicação para tudo bem ao nosso alcance” – e sempre damos um jeito de enquadrar o assunto em questão.


Mas há tanto que ainda não foi explicado! Eu não entendi muito bem a explicação científica do “efeito placebo”. O que está na raiz disso? Ok, o placebo existe, é fato, mas o que ele é? Não temos a menor idéia. E eu adoro isso. Adoro até mesmo essa coisa da vantagem natural quando um time está jogando em casa. Por que isso acontece? Isso está ligado a um sistema de crenças. Tanto o placebo quanto esse efeito do jogo em casa fazem parte de um sistema de crenças que pode transformar o pensamento em uma função biológica. E isso é algo que a ciência diz não ser possível. No entanto, é documentável.


MUSSER: É muito interessante você dizer isso. Se você saísse perguntando para as pessoas na rua, a maioria diria que ciência sempre tem resposta para tudo. Mas ao fazer a mesma pergunta para cientistas em laboratórios, eles diriam exatamente o contrário: como eles sabem pouco sobre o mundo. A ciência como “ato de humildade”. E acho que no filme, Elliot (o protagonista) diz algo coisa bem similar.

SHYAMALAN: Exatamente.

MUSSER:Você acha que alguns desses “atos da natureza” – no filme você aborda a maré vermelha e o colapso de colônias – estarão sempre além da nossa capacidade de explicar? Ou é algo que, com muita inteligência e esforço, poderá ser explicado?

SHYAMALAN: Geralmente as questões têm alguma explicação mal-contada ou são jogadas na pilha do “efeito placebo”. “OK, é fato, mas não temos a menor idéia.” E há outro exemplo: quando o tsunami estava vindo, todos os animais saíram correndo, pois sentiram o que aconteceria. O que existe em sua composição biológica primitiva – pelo menos nós a chamamos de “primitiva” –, que deixamos para trás? Isso seria ótimo para qualquer espécie - saber que há algo errado e que seria melhor sair correndo dali. Não temos esse ”poder” e, no entanto, nosso funcionamento deveria ser melhor! Então o que aconteceu? Nós não conseguimos nem entender o que é isso. De onde vem essa intuição animal? É alguma mudança microscópica na atmosfera que eles conseguem sentir? O que é isso exatamente?

Há tantas outras coisas impressionantes que nos ligam aos animais, que fazem de todos nós um único sistema. Acho que a principal questão no filme é que agimos como se não fizéssemos parte desse sistema.

MUSSER: Você disse ter se inspirado na biografia recém-publicada de Einstein, escrita por Walter Isaacson. Qual parte em especial você tentou colocar no filme?

SHYAMALAN: O mesmo tipo de coisa. Qual é a beleza da simplicidade? Há uma coisa que conecta todas as outras. Para seguir em busca dessa explicação, devemos ter a mesma motivação que aquela para procurar o Cálice Sagrado. Isso está ligado a algo místico – não sei se “místico” é a palavra certa. Está além da lógica; é a prova de que tudo vem de uma única coisa simples.

MUSSER:A física fundamental, como Einstein praticava, está sempre no limite entre a física e a metafísica, ou o místico e o material.


SHYAMALAN: É verdade. Contra o que ele estava lutando quando disse que Deus não joga dados? É a aleatoriedade.

MUSSER: Sim, na mecânica quântica você encontra esse tipo de aleatoriedade irredutível.

SHYAMALAN: E ele não gosta disso – e eu também não gosto. As coisas não deveriam ser aleatórias.

MUSSER: Esse era o ponto de vista de Einstein. Algumas pessoas discutem se ele estava certo ou se há realmente uma aleatoriedade que jamais seremos capazes de explicar, que seria inerente ao mundo.

SHYAMALAN: Isso iria contra, pelo menos, nossa compreensão primitiva.

MUSSER: Foi interessante o que você disse sobre beleza e simplicidade, porque acho que você encarnou o personagem do professor de matemática no filme. Ao encarar uma morte inevitável enquanto dirige por Princeton, ele tenta exprimir isso ao passageiro que também está no carro. Lá estão eles, prestes a morrer, e para dar conferir algum tipo de nobreza à sua morte, tentam resolver um problema matemático: a beleza da simplicidade.

SHYAMALAN: Isso é incrível, e pensamos nessa questão como se fosse algo sem importância: o princípio da duplicidade, que mesmo em pequenas quantidades se revela de uma magnitude incrível. Eu disse a John quando estávamos rodando aquela cena que o personagem vê beleza naqueles números e que sempre teve uma fascinação por eles. Há uma grande satisfação em entender que você faz isso, isso e aquilo e o resultado é aquilo outro. É incrível. É isso que o faz levantar da cama todos os dias, e também o que o levou a se ligar a Elliot, que enxerga isso na ciência. É por isso que eles se tornam tão próximos. E então ele está na sala e só quer uma coisa: essa é a minha alegria, aquilo que vejo, é a graça da vida para mim. Só mais uma vez, ensine só mais uma vez essa alegria a outro aluno.


MUSSER: Obviamente, muitas pessoas vão falar sobre os aspectos ambientais do filme. É claro que o enredo se desenvolve em torno dessa questão. Mas queria discutir essa questão mais a fundo – que há um surto desse instinto de sobrevivência. No mundo real, algumas vezes também acontecem surtos desse instinto de sobrevivência. Fazemos coisas que não contribuem para a nossa sobrevivência. É o exemplo clássico de fumar em pleno restaurante de comida orgânica. Há também algumas atitudes arriscadas, como na maneira como nosso governo lida com o aquecimento global, por exemplo.

SHYAMALAN: É verdade. Você daria fatores de mitigação para cada um deles. O instinto de sobrevivência está incrustado em nós de alguma forma. Talvez haja uma versão mais instintiva e outra mais intelectual dele, e a versão intelectual nunca funciona para nós. É por isso que fumamos em um restaurante de comida orgânica. Ele simplesmente não funciona.

Muitos de nossos instintos já não são os mesmos. Não precisamos mais correr atrás da caça para o jantar; temos tudo disponível. Então o instinto do organismo de armazenar carboidratos está se virando contra nós, e todo mundo está ficando obeso. Mas você não pode desligá-lo. Você não pode virar para o seu corpo e dizer: “Ei, você sempre tem comida disponível. Pare de ligar esse negócio!”. Você simplesmente tem vontade. É por isso que todo mundo se pergunta: por que sempre temos que gostar de porcarias? Por que não gostamos de verduras em vez de carboidratos? O corpo ainda funciona assim por causa do velho hábito de armazenar o máximo de gordura possível.

Quando estava pensando sobre o que se poderia fazer contra a espécie humana se ninguém mais a agüentasse, “desligar” o instinto de sobrevivência seria uma ótima idéia.

MUSSER: Há essa resposta da natureza contra a humanidade no filme. É claro que, na realidade, há sempre algum tipo de “punição”. A vida é muito mais frágil que pensamos. A civilização é ainda mais frágil. Você também tinha isso em mente?

SHYAMALAN: Neste momento, estou em uma estrada em Manhattan, e há um milhão de pessoas, e tudo isso parece muito importante, nosso destino nessa estrada também. Algumas árvores ladeiam a estrada. Mas na verdade, o momento em que você tem consciência de nossa importância para o mundo é quando você está no mar e se afasta um pouco demais. Você começa a boiar e quando se dá conta, está longe demais. Você pensava estar no mesmo lugar, mas o mar te puxou mais uns 25 metros. Você está longe, e se sente vulnerável.

Esse é um dos raros momentos da vida em que você realmente sente uma relação correta com a natureza, como quando as pessoas se vêem em uma tempestade gigante. Nesses momentos, tudo é frágil demais. É nessas horas que voltamos para o ponto de vista dos índios americanos: “Ah, é, você se lembra daquele povo tão simples e ingênuo? Então, eles estavam certos!”.


MUSSER: Na coletiva de imprensa, você disse que havia pesquisado enquanto escrevia o roteiro e discutia a plausibilidade do conceito como um todo com outras pessoas. Você poderia descrever essa fase um pouco mais?

SHYAMALAN: Pesquisei sobre os mecanismos das plantas: como elas reagem a ameaças, se são pró-ativas, e como desenvolveram sistemas incrivelmente complexos para lidar com problemas. Um campo de algodão, por exemplo, ao ser atacado por um parasita por um dos lados, envia um sinal para o outro para avisar a tempo que está sendo atacado e para que as plantas do lado de lá liberem algum tipo de substância química contra os predadores. É um sistema de comunicação impressionante.

Além disso, seria possível que tudo está reagindo o tempo todo? Isso só funcionaria se estivéssemos todos nos comunicando. Isso é possível? E era exatamente esse o caso.

MUSSER: O final do filme é impressionante. Três meses se passam e é quase como se a vida tivesse voltado ao normal. Isso teria acontecido porque, em sua concepção, as pessoas ignoraram aquele sinal?

SHYAMALAN: Sim, que havia existido ambigüidade o bastante para deixar o sinal de lado. Assim que você dá às pessoas uma saída para voltar para sua vida normal, elas a aceitam. É o caminho mais fácil. Então se você me disser que provavelmente foi coisa do governo ou de um vazamento nuclear, vou acreditar nessa explicação, e não vou querer saber mais nada sobre o assunto. Mas fazer uma mudança (em nossa relação com a natureza) dessa escala, se aquilo estivesse realmente acontecendo, não sei se seriamos capazes.

MUSSER: Que tipo de mudanças seriam necessárias, pelo menos dentro desse universo fictício?

SHYAMALAN: Seria necessária uma erradicação completa daquilo que as grandes populações fazem e afeta o meio ambiente. Existe uma energia coletiva que transmitimos? Por que as plantas crescem mais quando conversamos com elas? Todos esses tipos de perguntas. Você transmite algum tipo de energia? “Energia” seria a melhor palavra para expressar essa idéia – não em um estilo “New Age”, mas falando seriamente?

MUSSER: Então isso provocaria algum tipo de reflexão sobre os efeitos que temos sobre a natureza?

SHYAMALAN: Você começa a voltar para a hierarquia ao pensar sobre sua relação com a natureza – mais uma vez, aquela coisa dos índios norte-americanos, que eu acho que é a mais correta.

MUSSER: Que papel a ciência teria nessa transformação?

SHYAMALAN: No final a ciência teria as mesmas funções de hoje, como no corte de emissões de gases de efeito estufa, coisas do gênero. O que temos permissão para fazer? É correto haver quatro milhões de carros nessa estrada neste momento, em vez de alternativas de transporte público?

MUSSER: Mas, em suma, você é otimista e acredita que podemos sair dessa situação, e que tudo é uma questão de força de vontade?

SHYAMALAN: Alguém me contou recentemente que existem fazendas auto-sustentáveis – nessa onda nova e sofisticada de ser auto-sustentável. E eu pensei “ah, então é como a gente costumava viver”. Você planta tudo aquilo que come, e o que sobra é dado à comunidade – e é isso. Se voltássemos só um pouquinho no tempo, viveríamos em harmonia novamente. A natureza não se importa em estarmos aqui, pelo menos enquanto não tiramos vantagem da situação.

MUSSER: Mas você acha que poderíamos sustentar uma civilização industrial e moderna, ou teríamos que retornar a uma situação mais simples, mais rural?

SHYAMALAN: Essa é uma boa pergunta. Teríamos que repensar tudo. Somos capazes de criar um plástico orgânico? Você consegue lançar um produto que pode “voltar” para a natureza? Se a resposta for negativa, é melhor não lançá-lo, então.

MUSSER: Essas perguntas fazem parte do microcosmo de questões que o planeta terá que encarar em mais ou menos 50 anos.

SHYAMALAN: Exatamente. Cada coisa, cada escolha terá que ser avaliada com base na influência que terá sobre o planeta.

MUSSER: Você acha que explorará mais idéias assim seus filmes futuros?

SHYAMALAN: Não sei se exatamente essas idéias, mas definitivamente a ciência é um ponto de partida divertido para questões maiores. Confere veracidade ao roteiro. Você pode ir mais longe, inserir a ciência num contexto de um pesadelo e então chamar a atenção de todos para a questão.







6 comentários:

Anônimo disse...

Gostei muito do filme, mas não a ponto de virar fanática :)
Acho que o filme se justifica, mas não se explica...

Mariana

Breno Yared disse...

Ótimo que gostaste, Mariana, pois "Fim dos Tempos" é o filme mais frágil do diretor.

O filme se justifica em quê? E não se explica no acontecimento em si? Beijos!

fernando disse...

Eu fui assistir somente hoje a obra de Shyamalan.
Pra mim a justificativa do filme está em seu desenvolvimento, sua linguagem e não em sua temática, desde a belíssima cena inicial dos corpos caindo na construção, à conversa com a planta de plástico e a simplicidade do diálogo "entretubos" do casal no final do filme, o diretor é coeso, não a explicação da temática mas à sua mensagem como cineasta. Não é tão necessário explicar de onde e como vem o "mal", mas sim a estrutura dramática que este "Mcguffim" fornece para o filme. A beleza de Fim dos Tempos está em sua economia, sua renúncia ao exagero e ao espetáculo programado (aliás, exemplificando com às vezes tais recursos são desnecessários). Se Hitchcock conseguiu fazer de uma gaivota um animal assustador e Mario Bava fez horror com uma gota d'água, Shyamalan com "Fim dos Tempos" faz isso com uma mera visão de uma paisagem natural, e comprova de vez que está em uma categoria muito acima dos demais "alugados" de sua época, ele é um CINEASTA e o mundo com certeza se lembrará disso, pois se tem algo que está do lado dos artistas é o tempo.

Fábia disse...

ÉGUA, FERNANDOWISK! ADOREI SEU COMENTÁRIO...

SHYAMALANEISTAS, UNI-VOS!

Fábia

Breno Yared disse...

Genial comentário, Fernando. Resumiste o filme em poucas palavras.

Comentaste também sobre o "MacGuffin" - mais uma das inúmeras semelhanças de Shyamalan com Hitchcock – e eu me lembrei que os críticos diziam o mesmo dos filmes de Hitchcock, que ele não tinha nada a dizer. Truffaut tinha uma resposta na ponta da língua para isso: “Um cineasta não tem nada para dizer, tem para mostrar”.

O tempo irá colocá-lo em seu devido lugar ao lado dos grandes diretores da sétima arte.

Breno Yared disse...

Péssima notícia para os que odeiam Shyamalan. Bilheteria até o momento de "Fim dos Tempos":

EUA: $62,077,000 45.8%
Estrangeiro: $73,523,237 54.2%
Mundial: $135,600,237

O cara continua dando lucro.