quarta-feira, 18 de junho de 2008

Retrato em Luar

“Meus olhos ficam neste parque,/ minhas mãos no musgo dos muros,/ para o que um dia vier buscar-me,/ entre pensamentos futuros...”


“Não quero pronunciar teu nome,/ que a voz é o apelido do vento,/ e os graus da esfera me consomem/ toda, no mais simples momento...”


“São mais duráveis a hera, as malvas,/ que a minha face deste instante./ Mas que posso deixá-la em palavras,/ gravada num tempo constante...”


“Nunca tive os olhos tão claros/ e no sorriso em tanta loucura./ Sinto-me toda igual às árvores: solitária, perfeita e pura...”


“Aqui estão meus olhos nas flores,/ meus braços ao longo dos ramos:/ e, no vago rumor das fontes, uma voz de amor que sonhamos.”


Na primeira vez que li o poema Retrato em Luar (Retrato Natural, 1949), de Cecília Meireles, remeti logo às cenas que mostram, com o dia amanhecendo, os lugares que Jesse (Ethan Hawke) e Celine (Julie Delpy) passam a madrugada juntos, em Viena, no filme Antes do Amanhecer (Before Sunrise, 1994), de Richard Linklater.


Os versos de Cecília, assim como o filme de Linklater, além da bela história de amor, são sobre como damos vida e significado aos lugares, às coisas concretas, como um simples beco com bancos improvisados de caixotes que Jesse e Celine sentam, completamente enamorados, ganha um significado únicos para eles. Toda vez que visitarem aquele lugar lembrarão um do outro. Todos temos nossos lugares secretos que só tem significado para nós.


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O cineasta Alfred Hitchcock afirmava que com o advento do cinema falado, a maioria dos filmes se tornou “fotografia de pessoas falando”, como se a câmera tivesse se tornado refém das cenas de diálogo. E completava: “sempre que possível, dou preferência ao visual e não ao diálogo”. Em Antes do Amanhecer, Linklater conseguiu um equilíbrio poucas vezes visto no cinema entre os elementos de diálogo e os visuais. E tudo de forma simples e singela, mas nunca simplória.

Já vi muita gente reclamando: “eles parecem dois papagaios”. Mas o filme vai muito além dessa suposta verborragia. Tendo em mãos a continuidade clássica, Linklater usa e abusa do campo/contracampo e close ups. Não precisa de virtuosismo, a câmera apenas registra, mas registra tudo com rigor. E pegando emprestado outra frase de Hitchcock, agora como minha: em suma, pode-se dizer que no filme de Linklater o retângulo da tela está repleto de emoção.

No início, quando Jesse e Celine se conhecem no vagão do trem, ambos não dividem o mesmo plano, estão separados, unidos apenas pelo campo/contracampo que revela, pelo olhar, as verdadeiras intenções dos dois.


Nem quando o plano abre, mostrando o casal que brigava próximo a Celine, vemos os dois juntos.


Jesse aproveita que o casal passa entre eles e puxa assunto com Celine; em um sutil zoom in, a câmera se aproxima mais.


Assim os dois vão conversar no vagão-restaurante.

O campo/contracampo segue de acordo com envolvimento deles; logo o plano é mais aberto.


O diálogo continua, mas já podemos ver os dois dividindo os mesmos planos completamente envolvidos.

Quando Jesse conta a Celine a imagem que teve na infância da avó, após ela já ter morrido, o plano fecha.


O olhar de Celine já é o sim antes mesmo de Jesse perguntar se ela gostaria de acompanhá-lo em Viena.

Em Viena, na cena do ônibus, ambos dividem o enquadramento em plano médio, o que possibilita vermos não só os olhares, mas também os gestos e movimentos, como quando ele tenta ajeitar o cabelo dela, só que ainda não existe tal intimidade para isso.





Na cena da cabine – igual à do ônibus – mais uma vez eles estão tão próximos que já podemos ver a intimidade surgindo aos poucos: Celine adora que ele olhe para ela quando ela não está olhando para ele.



Até culminar na cena do beijo na roda gigante; o que eu mais gosto aqui, é a proximidade da câmera quando eles se abraçam e finalmente se tocam.


É como Jesse diz quase no final: “Ao seu lado, eu me senti outro.”

Em uma simples visita à igreja...


Ou em um beco...


É filme de amor.


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Antes do Amanhecer é incrivelmente real e palpável. Apaixonar-se é exatamente como no filme. Porém, nada se compara à despedida no final, ao rigoroso e singelo plano de Celine no trem contemplando a paisagem que passa. Parece um plano saído de algum filme do diretor russo Andrei Tarkovski, como este mesmo define o tempo e o ritmo no cinema.

“Assim como a vida, em constante movimento e mutação, permite que todos sintam e interpretem cada momento a seu próprio modo, o mesmo acontece com um filme autêntico; ao regiistrar fielmente na película o tempo que flui para além dos limites do fotograma, o verdadeiro filme vive no tempo, se o tempo também estiver vivo nele: este processo de interação é um fator fundamental no cinema”, afirma Tarkovski. Para ele, o ritmo não está na montagem, mas no interior do plano.

Nada mais sincero, solitário e silencioso do que Celine com a cabeça encostada à sua própria recordação. É a mais perfeita expressão de alguém que acabou de vivenciar o amor. Fade out.






13 comentários:

Anônimo disse...

Faz bastante tempo que vi "Antes do Amanhecer" pela primeira vez. Lembro-me como se fosse hoje. Desde pequena que gosto de ver filmes, mas não entendia bem o Cinema como Arte na época. Acho que não tinha mais que 10 anos. E mesmo naquele tempo, o filme me encantou profundamente. Nas minhas divagações pueris, imaginava se o "meu Jesse" surgiria em minha vida de forma tão despretensiosa e inesperada. Se em apenas um dia eu conseguiria ser Celine. Revi "Antes do Amanhecer" mais umas 3 vezes, creio eu, e o filme nunca deixou de me emocionar. Como você mesmo disse, o filme é simples e singelo, mas nunca simplório. Parabéns pelo post. É um filme maravilhoso e merecia um cantinho aqui.

Beijo, Breno.

Mel Portela

Breno Yared disse...

Acho que quase todo mundo tem uma história de amor parecida com essa, Mel. A minha se passou em Salinas, quando eu ainda morava em Belém. O plano final de Celine, traduz o filme todo. É filme de amor. Beijos!

Flávia disse...

Antes do Amanhecer é um dos mais sensíveis e concretos romances q já vi. Vc conseguiu esmiuçar todas as intenções dos personagens e a gnt consegue visualizar e viver td de novo.
Lindo, Breninho.
Bjo!!

Bruno disse...

Breno, gostei muito do seu blog.

Quando eu assisti A Dama na Agua eu percebi algumas coisas que vc escreveu mas nao sabia os nomes corretos para os enquadramentos.

Qual livro voce inidica sobre a Mise en Scene?

Grato.

Breno Yared disse...

Olá, Bruno! Eu particulamente ainda não li um livro que fale exclusivamente sobre mise en scène. Para mim sempre foi algo meio instintivo. Mas posso te indicar alguns que a teorizam e são repletos de exemplos. Leia todos de Andre Bazin e Truffaut para começar. Tem também o David Bordwell, mas os livros dele não foram lançados no Brasil, só importanto. Se souberes inglês é uma boa. E o que tu achaste de "Fim dos Tempos"? Valeu a visita! Abraço!

P.S: Podes comentar em qualquer post que aparece o comentário aqui para mim.

Zeno disse...

As cenas que vc cita, comenta e tal, são, como podemos notar, momentos de muita delicadeza e emoção. Evidentemente que o carisma dos atôres ajudaram em muito nas tais cenas, mas quando vc chama a atenção para enquadramentos, isso faz com que o filme torne-se, para mim, mais interessante do que ele já é.

Valeu demais, Bruno.
Abraço.

Breno Yared disse...

Valeu, Zeno! Concordo contigo: sem o carisma dos atores o filme não teria a mesma força, mas também sem os enquadramentos simples e precisos de Linklater, talvez "Antes do Amanhecer" fosse só mais um filme de amor. A perfeita sintonia entre os elementos de diálogo e os visuais, faz toda a diferença.

Dofwolf disse...

Belo trabalho,vc faz cinema?muito obrigado por jogar mais lenha na chama desse filme,ela nunca se apagara!

Nunca me canso desse filme,quando o vi pela primeira vez eu pensei comigo msm ,se eu ja tinha visto algum filme como que tenha gostando tanto quanto ele e não havia,ate hoje não há

Breno Yared disse...

Valeu, Dofwolf! Eu sou formado em publicidade, não em cinema.

"Antes do Amanhecer" é o mais belo filme de amor já feito. Também não me canso de revê-lo - e a continuação, "Antes do Pôr do Sol". Sempre entra na minha lista pessoal dos melhores filmes do cinema.

Abraço!

Shades disse...

Antes do Amanhecer é um filme belíssimo, adoro como o Linklater utiliza das sutilezas que você mostrou para mostrar o sentimento dos personagens

é incrivel como ele consegue mostrar sentimentos profundos em apenas um olhar ou em um ajeitar de cabelos ao invés de apelar para os lugares-comum dos filmes de romance com declarações intermináveis e trilhas melosas

Breno Yared disse...

E ainda tem gente que diz que "Titanic" é filme de amor, Shabes. Filme de amor é "Antes do Amanhecer".

Abraço!

Fabíola Abess disse...

Parabéns pela análise, esse filme é maravilhoso, fiz o caminho inverso, vi primeiro Antes do Pôr-do-sol, e Antes do Amanhecer vi na UFAM, no Cine Tarumã.
É um filme sobre o amor que todos desejam viver...
Faz refletir sobre muitas coisas.O lugar, os personagens e as falas são maravilhosas. Sempre me emociono.

Breno Yared disse...

Obrigado pela visita, Fabiola! Eu assisti "Antes do Amanhecer" pela primeira vez em 1998. Esperei anos pela continuação para saber o que aconteceria com os dois depois daquela despedida na estação de trem.

Beijos!