quinta-feira, 26 de junho de 2008

The Happening

Junho de 2008, sexta-feira 13, dia do lançamento de Fim dos tempos (The Happening). Às 15:50, estou em frente ao Cinemark ansioso para ver o novo filme de M. Nigth Shyamalan, na sessão das 16:00. Desde O Sexto Sentido (The Sixth Sense, 1999), tenho orgulho de dizer que vi todos os seus filmes em salas de cinema. Quando entro na sala sete, vejo que está quase vazia, apenas umas 15 pessoas. Recordo-me que em A Dama na Água (Lady in the Water, 2006) a sessão estava quase lotada, pelo menos nos primeiros dias. Mas o que não diminui meu ânimo.

O diretor indiano é um dos únicos da atualidade que me fazem ver um filme na estréia. As minhas expectativas são gigantescas acerca de Fim dos Tempos. Quero saber qual caminho ele seguirá após o fracasso de crítica e público de A Dama na Água; se foi preciso fazer concessões para finalizar seu novo projeto; e se teremos mais uma amostra da deslumbrante mise en scène de seus filmes anteriores, como a aparição de Story em A Dama na Água.


O filme começa e percebo logo de cara uma mudança: Shyamalan já nos joga dentro da trama, sem nem pedir licença, não há vestígio do extremo cuidado na construção das personagens, da progressão da narrativa e da imersão dos elementos fantásticos de seus filmes anteriores até A vila (The Village, 2004). O filme prossegue seguindo apenas a continuidade clássica e cenas de suicídio tão bem decupadas.

Não era o que eu esperava. Foi um impacto: essa imersão tão rápida aos eventos fantásticos, sem antes nem termos sido apresentados aos personagens. Mas, felizmente, eu estava enganado.

Logo após a cena de apresentação do protagonista, professor Elliot Moore (Mark Wahlberg), e a escola em que ele trabalha ser evacuada por causa de estranhos fenômenos ocorridos no Central Park, em Nova York, há um diálogo de exposição entre Elliot e seu amigo Julian (John Leguizamo), sobre a crise de seu casamento com Alma Moore (Zooey Deschanel). À primeira vista, esse diálogo de exposição pode parecer equivocado, colocado em um lugar estranho, onde normalmente os blockbusters atuais dariam ênfase à fuga da população e à ação. Mas só parece.

O filme continua e Julian decide deixar sua filha, Jess (Ashlyn Sanchez), com Elliot e Alma, a fim de tentar encontrar sua esposa ainda viva em Princeton. Mas sem antes dizer a Alma um dos diálogos mais ternos do filme: “não pegue a mão da minha filha se não for para valer”. Então vemos um insert de Alma segurando a mão de Jess. E depois, à beira da estrada, com Elliot sentado, Jess chega e simplesmente chorando o abraço. Está criado o vínculo entre eles.


Enquanto isso, Julian está a caminho de Princeton, cena essa que é uma das mais belas do filme: a câmera está sempre dentro do carro, é o olhar do espectador e dos personagens; rapidamente vemos pessoas enforcadas nas árvores, uma das moças entra em desespero, Julian tenta acalmá-la propondo um enigma, não quer que ela olhe para fora, o que também serve para nós, os espectadores, direciona nosso olhar, o que aumenta ainda mais a intensidade; depois, em um pequeno furo aberto no teto do carro, o vento entra.

Em paralelo à chegada de Julian a Princeton, Elliot, Alma e Jess tentam fugir de carro com um casal que conseguiram carona no restaurante. Já na estrada, acabam ficando em uma encruzilhada com corpos de pessoas mortas espalhadas pelo caminho. De repente, um cara do exército chega e, mais uma vez, Shyamalan tem um domínio tão rigoroso do enquadramento, que nos faz sentir o que os personagens sentem: a câmera fica o tempo todo dentro do carro e vemos apenas pela janela pessoas vindo de todas as direções até ficarem encurraladas, sem saber para onde seguir.


Assim como em Os Pássaros (The Birds, 1963), de Alfred Hitchcock, o diretor indiano aponta sua câmera unicamente para os personagens, para o micro. Não se sabe de onde vem o ataque, suspeita-se apenas de terrorismo. Estamos na pele dos protagonistas, não vemos planos gerais da multidão em fuga, nem cenas de ação, vemos apenas eles fugindo confusos do desconhecido. E não há nada mais Shyamalaniano do que isso. Em toda sua filmografia, desde O Sexto Sentido, ele aponta para um cinema sensorial, onde a câmera, através da mise en scène, registra, acima de tudo, o espaço, o tempo e o sentimento de seus personagens.

Entretanto, ao mesmo tempo em que o filme de Hitchcock é uma referência, Shyamalan o desconstrói. Como citei alguns parágrafos acima: não há o criterioso cuidado na progressão da narrativa e dos personagens em Fim dos Tempos, igual ao filme do gorducho inglês - nem precisa, Shyamalan já nos deu algo magnificamente bem estruturado em Copo Fechado (Unbreakable, 2000). O que vale aqui não é apenas homenagear filmes B, ou do gênero catástrofe, ou até Hitchcock. Mas, sim, partir dessas características do cinema de gênero a fim de construir seu próprio estilo, basicamente, como um reformista. Um autêntico artista, um auteurs.

Há uma cena, quase no final, tão menosprezada por crítica e público que eu acho um primor de direção e roteiro: quando Sra. Jones (Betty Buckley) – a velha - surge quase no final. Além de ter função dramática no filme, Shyamalan a constrói como um set piece, que são cenas auto-suficientes, experiências solitárias, que podem ou não ajudar na progressão da narrativa. No caso de Fim dos tempos, são as duas coisas. São cenas presentes em quase todos os filmes de Hitchcock: a de perseguição no milharal, em Intriga Internacional (North by Northwest, 1959); as crianças fugindo da escola e os pássaros as perseguindo, em Os Pássaros; e a famosa cena do chuveiro, em Psicose (Psycho, 1960).

Outra polêmica é quanto ao final, quando vemos Elliot, Alma e Jess já como uma família, ser literal demais. O que eu acho exatamente o contrário: quando Alma faz o teste de gravidez e dá positivo, em um singelo close up, vemos o plano de reação dela em que seu sorriso preenche magnificamente o enquadramento, até ela esperar Elliot do lado de fora da casa; só o olhar, a forma como se move, já dá a entender, para ele, o que houve, a câmera fica apenas de longe, até eles se abraçarem e termos um perfeito tempo de corte na cena, um fade out, que é uma das marcas de Shymalan, como o final de A Dama na Água – interessante perceber as plantas nos cantos do enquadramento. A cena posterior define o tom de pessimismo a esse suposto final feliz.


Fim dos Tempos também vai além do tão comentado subtexto ecológico. Ironiza e brinca com a atual era do cinema de mentirinha, no qual praticamente tudo é feito em CGI (Computer Generated Imagery). É só prestar atenção na cena da casa com objetos falsos, quando eles saem tem uma frase bem grande escrita em um outdoor: "Vocês merecem isso". Interessante também é como o público fica indignado que o seu blockbuster do final de semana, o vilão é o vento. Aliás, em todos os filmes de Shyamlan não há o arquétipo óbvio de vilão e mocinho.

O que mais encanta em Fim dos Tempos são a integridade e a coragem de Shyamalan em arriscar a própria carreira em prol de um projeto de cinema, de uma unidade temática e formal. Algo raríssimo, atualmente, na era dos blockubusters. Assim como o extremo desprezo para com o público não dando a ele o que quer ver, mas o que ele, o diretor, quer dar. Quando pensamos que já o conhecemos por completo, ele nos mostra outro caminho. O estilo mudou um pouco, mas a essência continua a mesma.

Será que vai ser preciso mais uma vez um francês exaltar as qualidades de um diretor que teima em ser um auteurs dentro do sistema de estúdios na América? Como diz Clint Eastwood acerca do Western, gênero tipicamente americano, mas que também serve para o cinema de Shyamalan: “Os americanos costumam ser indiferentes às suas próprias formas de arte. Sabe como é, a grama do vizinho é mais verde. É comum procurarmos em outro lugar, quando há arte de primeira bem na nossa frente”.

23 comentários:

Fábia disse...

Torna-se cada vez mais um desafio defender a arte shyamalaniana. Vejo pelo comentários em blogs e comunidades do orkut. Até muitos dos seus fãs, torceram o nariz para fim Fim dos Tempos. E para aqueles que ainda o defendem, como eu, somos chamados de "iluminados". Iluminado é Shyamalan que cada vez mais me convence de que a sua arte não se curva, apenas se transforma através de uma versatilidade inconpreensível para a maioria que o vê. Nesse último filme, o sinto mais irônico, ao "brincar" com o tema, com o genêro, com o público, com os críticos, etc. O vilão do Fim dos Tempos, não é o vento, Breno, é o público.

"Shyamalaneistas, uni-vos! "[:D]
Fábia Martins

Anônimo disse...

Me desculpe pela ignorância mas tenho muitas dúvidas (espero que esclareça-as):

1.Afinal, qual o conceito de "blockbuster"? Seja objetivo.

1 e 1/2. Porque Fim dos tempos é um blockbuster?

2.é novidade apontar a câmera pros personagens num filme de suspense? Isso faz do filme um filme bom? Cito Dracula do Coppola.

3.o filme é bom porque ele é um "auteur"? É por isso que o filme é bom? cito Sofia Coppola, Tim Burton e Woody Allen, só pra te beliscar.

4.Explique melhor a grandeza do set piece da velha e qual sua função dramatica.

5.A atual era do cinema de mentirinha (CGI), o Shyamallan faz parte? Ou joga-se no lixo a cena final de Dama na Água?

O filme começou a me interessar por outras questões, talvez um foda-se ao contar uma estória, à crença no poder da imagem e não na atuação ou roteiro ou subtexto (sendo uma incrivel sacanagem com isso, apesar deu achar que o Shyamallan fala serio qnd põe os tais "problemas contemporaneos", e não me agrada), a um filme que peita nossa (má) educação do olhar, a uma brincadeira com tudo: generos, dramaticidade, cinema. um talvez pra isso tudo que eu disse.. só coisas que passam na minha cabeça esquizofrenica. nem me preocupo em explicar, não estou aqui no papel de critico. Também não vou falar o que me desagrada por enquanto.

Enfim, por não ser um fanático pelo indiano posso me afastar.. não critico o filme por não me sentir critico o suficiente, questiono aos mais iluminados, na esperança de poder saber, entender.

por favor, me ajudem. Se unam e me ajudem, Shyamalaneistas!

Mateus.

felipe disse...

A seqüência é magnífica. A câmera entra em uma casa aparentemente vazia. Caminha pela sala cheia de brinquedos de criança, pela sala de jantar com 6 cadeiras desocupadas. Chega até a cozinha. Lá vemos um jovem lavando a louça, ele parece cansado, sua expressão (que enche a tela e nos dá o tom exato da atmosfera e da experiência pela qual ele está passando) é de preocupação, de alguém a quem foi imposta uma nova responsabilidade. Ouve-se o choro de uma criança, ele então sobe as escadas (a câmera sempre o acompanha, pois afinal o foco está no personagem, para que o público compartilhe dos sentimentos, das sensações que estão em jogo ali). Mas, nesse momento, a câmera fica na parte de baixo da casa. O foco se movimenta na direção da sala novamente. Dessa vez mostrando fotos de família. Uma família feliz. Após passear por várias fotografias, a câmera se detém em uma foto: a família completa, pai, mãe e filhos. Mas todo o desenrolar da cena anterior deu a entender que há uma ausência palpável. Alguém que agora só existe naquela fotografia. O fade out ao fim da seqüência sublinha ainda mais essa sensação. É a obra de um autor. Alguém que passa sua mensagem apenas através de gestos e expressões. Sim, há um autor por trás deste episódio da série Dawson’s Creek.
...

Fim dos Tempos tem um mérito comigo: me faz pensar em grandes questões. Mas cada vez mais acho que o mérito fica por aí. Repito: gosto de Shyamalan, respeito sua obra, mas até agora todas as defesas que se tem feito só serviram pra que eu visse mais e mais problemas no filme. O que quis pontuar com a decoupagem da cena de Dawson's Creek foi que: não há nada de excepcional no que Shyamalan faz aqui. O que são apontados como grandes méritos, pra mim são coisas recorrentes até nos piores exemplares de diversos gêneros. Cinema de autor? Com certeza. Assim como o cinema de Spielberg é de autor. Ênfase nos personagens para jogar o espector na ação? Não acho, creio que o filme vá na direção contrária (o que é explícito pelas atuações forçadas), e se fosse esse o caso, nunca vi o uso desse artifício se distanciar tanto daquilo que Hitchcock se propunha. A cena da descoberta da gravidez? Nada que eu não tenha visto em, no mínimo, 10 séries de tv (entre grandes séries e outras medíocres). Isso tudo pode ter num filme e ser magnífico, mas não é o caso de Fim dos Tempos. O filme instiga sim, mas as defesas que leio a respeito parecem estar indo por um viés completamente equivocado. O que faz com que tanto os elogios quanto algumas críticas sejam igualmente inválidos pra mim. Shyamalan não fez o filme pro grande público, não é um blockbuster, não é pra crítica, parece ser para ele... mas ainda assim tem coisa que não se justifica por esse olhar. A discussão deve ser muito mais ampla do que a que eu tenho visto até agora, pois ao que parece põe-se o diretor numa posição inatacável, fazendo com que seja nula qualquer argumentação em outro sentido. E isso é a morte de qualquer discussão.

Breno Yared disse...

Vamos lá:

1. Na década de 60, os estúdios de hollywood entraram em colapso, a grande maioria foi vendida a conglomerados dos mais variados setores. Por Exemplo: a MGM passou para as mãos de um grande empresário do ramo de hotéis, Kirk Kikorian e a Warner que primeiramente foi fundida com a canadense Seven Arts Production, acabou adquirida por uma empresa de estacionamentos e funerárias. Os magnatas dos estúdios acabaram sendo substituídos por executivos engravatados.

Nessa época de incertezas em Hollywood, logo no começo da década de 70, diretores como Martin Scorsese, Brian de Palma , Cimino, Copolla, Steven Spielberg tomaram de assalto os grandes estúdios, foi a época da “Nouvelle Vague” americana, época de filmes pessoais e conceituais influenciados pela política dos autores da Nouvelle Vague francesa. Era o começo da Nova Hollywood.

Entretanto, o período de domínio dos diretores, não durou muito, a maioria dos filmes não tinham retorno para os estúdios, o que acabou tirando o controle da produção das mãos deles. Em 1975, “Tubarão”, de Spielberg, foi lançado como um evento: teve grandes investimentos em publicidade e foi lançado simultaneamente em várias salas de cinema. O conceito de blockbuster idealizado por dois executivos de estúdios, Wasserman e J. Ross, que tinha o objetivo de arrecadar o máximo em bilheteria logo no lançamento, começou no filme de Spielberg.

Dois anos depois, em 77, Geroge Lucas lançou “Guerra nas Estrelas” que alcançou a marca de quase 200 milhões dólares em bilheteria, tendo desdobramento na venda de direito autoral para a comercialização de brinquedos, camisas e bonecas da franquia. Já nos 80, com os filmes de Indiana Jones, Spielberg definiu a estética dos blockbusters em três aspectos, como define A. C. Gomes de Mattos: “a velocidade como pura quantidade de movimento, a pouca espessura dos personagens e o piscar dos olhos para o cinema de aventura clássico dos anos de 30 a 60”

Nas duas últimas décadas o conceito de blockbuster se estabeleceu: filme-evento, produções milionárias, grandes astros e estrelas, uso de CGI, filme voltado para um target específico (público infanto-juvenil), altos investimentos em publicidade dos filmes na televisão e internet, lançamento em várias salas de cinema e no período de férias para obter o máximo de lucro no lançamento. Indústria esta dominada pelos grandes conglomerados de mídia.

Breno Yared disse...

1 e 1/2. “Fim dos Tempos” se enquadra praticamente em boa parte dos conceitos que defini logo acima. Os quatro primeiros filmes de Shyamalan, após o “Sexto Sentido”, arrecadaram bem mais de 1 bilhão de dólares, é por isso que ele ainda consegue investimento e sobrevive dentro sistema. No filme “Two Weeks in Another Town”, de Minelli, tem um diálogo genial sobre o relacionamento dos diretores com os executivos. O diretor está atrasado com as filmagens e diz:

- dê-me mais duas semanas e eu te dou um filme de Maurice Krueger. Não queres o melhor filme?
- Não.
- Você não quer ter o melhor filme?
- Não.
- Não sente orgulho que o filme leve seu nome?
- Não.
Os investidores dão 60 milhões para ele fazer “Fim dos Tempos”, mas querem pelo menos o triplo de lucro.

- Vocês querem um filme de “Auteurs”?
- Não.
- E o público quer?
- Isso é de comer?

Breno Yared disse...

2. Não tem nada de novo, Spielberg já fez isso em “Tubarão” e “Contatos Imediatos...”, Hitchcock em “Os Pássaros”, tanto que os dois diretores são as principais influências do Shyamalan. Mas e daí? O Bong Joon-Ho já disse que a maior referência dele quando fez “The Host”, foi “Sinais”. E é um dos melhores filmes de gênero dos últimos anos. O principal é como se aborda o tema. Já “Drácula” não tem nada a ver.

3. Lê os livros do Truffaut e Bazin, principalmente “Entrevista: Hitchcock e Truffaut”, lá tem a resposta. Para mim, o filme também é bom porque ele é um ‘auteur”.

Engraçado que boa parte da crítica reclamou do estilo desleixado na direção de Sofia em “Maria Antonieta”. Mas isso não era uma virtude em “Encontros e Desencontros”? Não é o estilo dela? Fazer cinema de autor é bem mais que isso. A única coisa que eu consigo ver de bom nos filmes dela é o roteiro, não a direção.

Allen faz filme autoral pegando a sobra: filmes independentes que não existiriam sem o lucro fenomenal de um “O Senhor dos Anéis”. Como as salas de cinema precisam ser preenchidas durante todos os anos, sobra investimento para o lançamento de filmes ditos independentes.

O Burton faz um cinema autoral mais ao estilo dos “smugglers”, pelo subtexto. Mas não comparo com o formalismo do Shyamalan. E o foda é que o Burton vive chupando do maior ídolo dele: Mario Bava.

Breno Yared disse...

4. Explicar melhor o set piece por aqui é foda, teria que fazer um post só para isso.

O tema recorrente na obra de Shyamalan é o papel da família. Em “Fim dos Tempos”, a toxina obriga que as pessoas se afastem para sobreviver. No começo, Eliot e Alma já estão emocionalmente afastado, mas o evento os une, aproxima-os novamente. A cena da velha dá ênfase nisto: é preciso estar em conexão com as pessoas e a natureza.

Em uma entrevista, Shyamalan um pouco de ciência, mas no final, tem uma deixa para a cena da velha.

MUSSER:Você acha que alguns desses “atos da natureza” – no filme você aborda a maré vermelha e o colapso de colônias – estarão sempre além da nossa capacidade de explicar? Ou é algo que, com muita inteligência e esforço, poderá ser explicado?

SHYAMALAN: Geralmente as questões têm alguma explicação mal-contada ou são jogadas na pilha do “efeito placebo”. “OK, é fato, mas não temos a menor idéia.” E há outro exemplo: quando o tsunami estava vindo, todos os animais saíram correndo, pois sentiram o que aconteceria. O que existe em sua composição biológica primitiva – pelo menos nós a chamamos de “primitiva” –, que deixamos para trás? Isso seria ótimo para qualquer espécie - saber que há algo errado e que seria melhor sair correndo dali. Não temos esse ”poder” e, no entanto, nosso funcionamento deveria ser melhor! Então o que aconteceu? Nós não conseguimos nem entender o que é isso. De onde vem essa intuição animal? É alguma mudança microscópica na atmosfera que eles conseguem sentir? O que é isso exatamente?

Há tantas outras coisas impressionantes que nos ligam aos animais, que fazem de todos nós um único sistema. Acho que a principal questão no filme é que agimos como se não fizéssemos parte desse sistema.

Eu também achei interessante a cena que a velha bate na mão da menina que tenta pegar um doce na mesa e diz: “Não mexa no que não é seu”. É quase como se fosse uma metáfora da natureza para com o homem.

5. Lógico que o Shyamalan faz parte da era do CGI. Em “Fim dos Tempos” tem, mas está colocado em lugares diferentes do normal. O final de “A Dama na Água” é o exemplo de se saber usar o CGI como opção, não como fim.

Breno Yared disse...

Eu não vi essa cena em “Dawson’s Creek.”, Felipe. Mas gostei da tua descrição. Consegui visualizar. A forma como descreveste, realmente parece uma cena de autor, mas infelizmente não é, não no sentido que estou falando. E eu te pergunto: Sabes o nome do cara que dirigiu o episódio? Qual é a unidade temática e formal que levanta ao longo da série feita por esse cara? Quantos episódios ele dirigiu? Importa realmente saber quem dirigiu?

Uma simples sena bem dirigida, não faz de ninguém um “auteurs”. Se fosse assim, eu mando para vocês uma simples cena de um dos curtas que eu fiz na universidade: decupei a subida de um carro por uma ladeira, como se fosse um faroeste do Leone, usando a trilha e a justaposição dos planos. Sim! Existe um autor por trás do filme. Mas eu sou um? Sou um merda apenas.

Alguns anos atrás, assistindo uma dessas novelas das seis da Globo, que não lembro nome, tinha um casal que alimentava uma amor quase impossível. Não sei os porquês, mas sei que eles não conseguiam ficar juntos. Tinha uma cena de despedida que enquadrava os dois de perfil em plano médio, bem de frente um para o outro, conversando quase abraçados e algumas pessoas ao fundo, a câmera está sempre fixa, nunca se move; de repente, ela faz um leve zoom out, abrindo um pouco o plano, até vermos que havia uma janela entre a câmera e o casal, o que se forma uma moldura, como um retrato; neste exato momento, o casal, nem os personagens ao fundo se movem, tudo estático; então eles apenas se despedem e um sai à esquerda e o outro à direita do enquadramento, corta. Depois vemos cada um seguindo seu caminho. Isso é mise en scène? É. Mas é autoral? Não. E pergunte-me: quem dirigiu? Não sei. Nem nos créditos aparecia. Nunca vou saber quem foi. Nem precisa.

Breno Yared disse...

Série de televisão não é cinema. “Arquivo X”, por exemplo, foi criado por Cris Carter, os episódios foram dirigidos por diretores diferentes, mas seguem o conceito de Carter. Tem episódios bem dirigidos? Tem. Como aquele feito em plano seqüência com apenas 3 cortes. Mas alguém aí me diz que dirigiu. Não sei. E o Nome de Cris Carter aparece sempre em evidência. Ou no sublime fade out de um dos episódios que termina em aberto com Scully e Mulder exalando tédio na relação dos dois, melhor que muito filme, mas me diz aí que dirigiu o episódio. Não sei. O nome Cris Carter novamente em evidência. É assim em “Os SoPranos”, “Cidades dos Homens”, “House”, etc.

Outro ótimo exemplo é a adaptação de “Arquivo X” para o cinema que não tem nem 10% da essência do seriado, mas ta tudo lá: o produtor é o mesmo, o diretor, os atores. Mas por que não sai tão bom quando a série? Porque são meios diferentes. As concessões feitas pelo diretor no filme são tão grandes, que não vemos nem o resquício do estilo dele visível na série. Cinema é brincadeira de gente grande.

Eu estou falando de algo muito maior, Felipe. Do conceito de “auteurs” da política dos autores da Nouvelle Vague. De diretores que tem um projeto de cinema, uma unidade temática e formal. Podes fala qualquer coisa de “Fim dos Tempos”, mas não podes dizer que não é um filme de M. N. Shyamalan. Na televisão não há essa exaltação do trabalho do diretor, mas sim da concepção do autor da série, do texto. Tanto que várias séries têm autênticos “smugglers” (definição de Scorsese para os diretores que contrabandeavam no subtexto temas polêmicos para seus filmes), isto sim é autoral - algo que o cinema já nos deu com Fuller, Lang; hoje com Burton e Paul Verhoeven.

Breno Yared disse...

No prefácio do livro “Entrevista: Hitchcock e Truffaut”, Ismael Xavier descreve o que Truffaut chama de “cinema puro”, um autêntico “auteurs”:

“Ou seja, da forma como a mise en scène de Hitchcock – posições de câmera, gestos e olhares dos personagens – revela o fluxo subterrâneo de interesse e emoções, o que está além do que se expõe nos diálogos. O cinema puro de dá quando a lógica e imagens e sons diz mais sobre a verdade dos comportamentos (não excluindo o da própria platéia) do que a superfície do enredo.”

Estou escrevendo vários posts sobre “Corpo Fechado”, para mostrar que Shyamalan não é hitchcockiano pelo suspense, mas pela mise en scène. Tudo o que Ismael descreveu acima, está no filme do Shyamalan.

Em uma entrevista publicada na revista Scientific American Brasil, Shyamalan fala sobre ciência e “Fim dos Tempos”. Umas dos perguntas entrevistador e a resposta dele, definem de forma perfeita o filme:

MUSSER: Você disse ter se inspirado na biografia recém-publicada de Einstein, escrita por Walter Isaacson. Qual parte em especial você tentou colocar no filme?

SHYAMALAN: O mesmo tipo de coisa. Qual é a beleza da simplicidade? Há uma coisa que conecta todas as outras. Para seguir em busca dessa explicação, devemos ter a mesma motivação que aquela para procurar o Cálice Sagrado. Isso está ligado a algo místico – não sei se “místico” é a palavra certa. Está além da lógica; é a prova de que tudo vem de uma única coisa simples.

Sabes por que não viste uma mise en scène espetacular em “Fim dos Tempos”, Felipe? Porque não tem. A proposta é buscar o sensorial através da simplicidade, do vento. Quando eu sai do cinema, tava formando uma chuva, muito vento, aquilo foi assombro, mas não por medo do sobrenatural, mas sim porque quase pude sentir os sentimentos que movem aquelas pessoas. É sensorial.

Breno Yared disse...

“Shyamalan não fez o filme pro grande público, não é um blockbuster, não é pra crítica, parece ser para ele...”, isso é meio óbvio, não? O que escreveste só define ainda mais que o Shyamalan é “auteurs”. Só faltou tu entenderes que o fato dele não fazer um filme para o grande público, não quer dizer que não seja um blockbuster. O filme é concebido, sim, como um blockbuster. Há muitos aspectos de filmes de gênero em “Fim dos Tempos”, só veres a cena final.

“A discussão deve ser muito mais ampla do que a que eu tenho visto até agora”, e eu te pergunto, Felipe: será que tu entendeste a proposta de “A Dama na Água” e “Fim dos Tempos”? Que o rompimento dele com a Disney se mostra simbólico na forma como escancara toda a engrenagem de seus filmes em “A Dama na Água”, deixando tudo exposto, sem medo de parecer piegas ou ridículo. É o questionamento do simples fabular, de contar uma simples estória de ninar, e o público se envolver com isso, algo praticamente inexistente nos blockbusters atuais. E outra: mostre-me em algum seriado de televisão alguma cena que chegue perto da aparição de Story – se não souberes qual é, procura nos posts antigos aqui “Shyamalaneistas, univos!”.

Sara Burle, disse...

tenho até medo de passar nesse blog d iluminados...vai q vc descobre meus segredos mais obscuros!!! e fábia tbm...
só passei pra dar um bj em vcs =**************************

Breno Yared disse...

Cuidado, Sarocaaaa: I seed dead people

hahahaha

Daniel "God of War" Belém-PA disse...

Postei esse comentário na comunidade dos cinéfilos de Belém no orkut:

De longe muito melhor que o chatinho "A Dama na Água", porém não chega nem aos pés de "Corpo Fechado" e "Sinais", pra mim os melhores do M. Night. Valeu por ter trazido o bom suspense de volta (Hitchcock ficaria orgulhoso) e por algumas cenas fantásticas, como aquela da galera se jogando de cima do prédio em construção e aquela sequência de gente se matando com a pistola do policial. Confesso que, pelo suspense, prendeu minha atenção até o fim, apesar das atuações fraquinhas. Essa é minha primeira crítica: atuações muito fraquinhas mesmo (por sinal não reparei se o M. Night apareceu em alguma cena, como ele costuma fazer em homenagem a seu mestre Hitchcock). A segunda: achei que faltou a "grande sacada" no final, como ocorreu nos anteriores desde "O Sexto Sentido". Penso que ele pegou o filme do Al Gore (Uma Verdade Incoveniente) e transformou num suspense, pois a mensagem é clara: o planeta Terra tá puto e tá se vingando dos humanos. Então acho que faltou essa "grande sacada" que faz a gente soltar aquele "Oooohhhhh, então é isso!!!". Acho que agora o M. Night podia se desprender um pouco de si mesmo e dirigir um roteiro que não seja de sua autoria, só pra variar. Outra coisa que lembrei agora: pô, a galera correndo mais rápido que o vento num dá né?!?!?! Foi mal M. Night.

Nota 7,0

Ronaldo Passarinho disse...

Desculpa me intrometer, Breno, mas não resisto. o comentário do Daniel "God of War" é sensacional. Ele resume todas as objeções contra as quais eu venho escrevendo. Reclama das atuações fraquinhas, da falta da "grande sacada" no final, sugere que o filme seja baseado em Uma Verdade Inconveniente e se incomoda com o vento. Repito: sensacional. As viúvas de O Sexto Sentido nunca vão se comformar com Fim dos Tempos. Abraço.

Daniel "God of War" Belém-PA disse...

Ronaldo e Breno,
Respeito a opinião de vocês enquanto estudiosos da arte cinematográfica. Gostaria de, assim como vocês, possuir esse olhar diferenciado para certos aspectos das películas. Tenho me esforçado nesse sentido, fazendo leituras e trocando idéias com pessoas como vocês. Sou leitor assíduo da coluna e do blog do Ronaldo e admirador da proposta deste blog do Breno. Bom, já passei a vaselina, agora lá vai... acho que a admiração (ou paixão) de vocês pela obra do M. Night tornou-os "cegos" para as fraquezas dos seus dois últimos trabalhos. Só isso explica o fato de vocês ignorarem ou refutarem opiniões como a minha sobre "A Dama" e "Fim". Sei que estar com a maioria não significa que eu esteja necessariamente do lado certo, mas se para o grande público o M. Night parece que está perdendo o encanto é sinal que alguma coisa tá errada, ou não? Como ele e vocês não estão nem aí pro grande público, é claro que pra vocês tá tudo certo, e nesse caso o cara é apenas incompreendido. Mas acho sim que ele tem deixado a desejar principalmente como roteirista. Por que ele não dirige um roteiro que não seja de sua autoria só pra variar e pra mostrar o grande diretor que é? Será um problema de ego? Será só pra provocar os poderosos do cinema? Qualquer que seja razão, minha decepção e minha opinião não vão mudar. E Ronaldo, eu preferiria ser chamado de viúvo de "Corpo Fechado" e "Sinais" por favor!

Ronaldo Passarinho disse...

Daniel, desculpa se meu comentário soou desrespeitoso. Não foi minha intenção. Escrevi sem pensar, empolgado com teu texto. Se eu não achasse que havias exposto as tuas idéias com clareza e coerência, nem me daria ao trabalho de comentar. Já li muita gente escrevendo sobre o filme só na base do gostei ou não gostei. O que me empolgou foi justamente ler um texto tão bem articulado, enumerando as objeções que muita gente faz ao filme, e contra as quais eu venho escrevendo no meu blog e na zoom. Num desses textos, eu disse que gosto de Fim dos Tempos por ser um filme de Shyamalan, mas isso não quer dizer que a admiração por ele me deixou cego. Martin Scorsese é um dos meus ídolos, mas faz muito tempo que não me empolgo de verdade com os filmes dele. E detestei Os Infiltrados. Logo essa teoria de que já gosto de antemão de qualquer filme de diretores que admiro é furada. Sou viúvo de "Os Bons Companheiros" e "Cassino". E não cabe a mim estar ou não aí para o grande público. Isso é problema do Shyamalan. De um viúvo para outro, um abração.

Daniel "God of War" Belém-PA disse...

Ei Ronaldo, sem crise cara!!! Não me ofendi não, pelo contrário, fiquei lisonjeado de ter contribuído para o debate. E também achei muita graça dessa história de "viúva" huahuahauhua. O Breno já me conhece há um tempão, somos grandes amigos aqui em Belém e apesar disso sempre tivemos nossas "diferenças cinematográficas". Um bom debate é sempre muito saudável e estimulante. E viva a democracia!!! Abração.

Breno Yared disse...

O problema é que as objeções que fizeste, Daniel, são intencionais. O público não leva em conta que a briga com a Disney, o rótulo de diretor de “finais surpresas” – sendo que ele só fez dois – e a possível perda do controle de suas produções são alguns dos principais temas dos últimos filmes do Shyamalan. Isso é ser um autor.

Colocar o “vilão” do filme como o vento; colocar supostas atuações ruins dos atores; e colocar um final que parece didático, mas que na verdade segue convenções de filmes de gênero, são escolhas que fazem de “Fm dos Tempos” quase um filme minimalista, bastante estranho no cenário atual. E Shyamalan não está falando apenas sobre ecologia, Daniel, mas também sobre o próprio ato de se fazer cinema e o quanto o público está sensível a isto. O fato de o filme ser amado ou odiado, no mesmo nível, engrandece-o ainda mais, pois incomoda e faz penar. A principal intenção do autor. E eu coloco “Fim dos Tempos” no mesmo nível dos meus filmes preferidos dele: “Corpo Fechado” e “A Vila”.

Não sei se o roteiro do próximo filme de Shyamalan, “Avatar”, será dele. Mas o que eu mais desejo é que ele faça algumas concessões neste próximo projeto, mesmo porque há muito mais coisas envolvidas do que um filme pessoal. Será a prova do quanto ele é um autor, mostrando que mesmo ao fazer concessões, não perde seu estilo, e que se não deu ao público o que queria, foi simplesmente porque não quis.

É impressionante como a carreira do Shyamalan se parece com a do Radiohead na música. Talvez “Avatar” seja o seu “In Rainbows”, ou não.

Breno Yared disse...

O Shyamalan é o Joey, Daniel, amante da Alma. Só ouvimos rapidamente ele falar alô quando ela desliga o telefone na cara dele.

Juliano Ferreira disse...

Grande Breno... um post melhor que o outro. Fantástico, mano!

Abraço!

Breno Yared disse...

Valeu, Juliano! Vê se aparece mais.

Rodrigo Castro disse...

Há algo de interessante quando se fala de filmes: histórias. Uma história move um filme, principalmente se você se utiliza dessa arte - que sejamos francos, nasceu popular e apesar dos preços se mantêm sim, com esse fundamento de existência.

E acho mais interesante é que não vi no artigo do Breno - meu chapa há anos - e nem nos comentários de quem aqui comentou, falando bem, sobre a história que é com certeza o pior argumento de Shyamalan.

Se ele pretende fincar os pés no lance de que é um autor, ou um verdadeiro diretor de cinema que "coitadinho" trabalha para os mal-feitores de Hollywood, que vá fazer filme longe disso.

Ser um leitor de livros, amar a arte, saber sobre a técnica, não faz de mim, ou de qualquer um aqui, pessoas que nao devem ouvir uma contra-parte. Pelo contrário.

Mas daí a dizer que a forma merece ser exaltada por sua técnica e em nenhum momento analisar de forma fria - longe de fanatismos (o de ser fã que fique claro) - um roteiro pífio e muito, mas muito mal esrito é zombar de si mesmo.

E para piorar: pergunte para o Shamalan se ele nao gosta de que as pessoas, todas, vejam seus filmes. Pergunta prele se ele gostaria que somente os entendidos falassem ou os assistissem?

A resposta, é a mesma se você se fizer outra pergunta: "Quantas pessoas leram o que eu escrevi no meu blog". Artista que nao quer ser adorado nao existe. Ele tá em mal fase sim, é um grande diretor sim, mas fez um filme ruim.

E por causa disso o mundo vai mudar? Claro que não. As pessoas que não viram/perceberam a grande técnica, não entendem nada de cinema? Isso é ser um entendedor?

Cultura nao é riqueza pessoal. É um bem para ser compartilhado e sim, nossos ídolos tem pés de barro. Então podem chorar e tombar um pouquinho a estátua de Shyamalan, ele pisou na bola sim.