quarta-feira, 30 de abril de 2008

There Will Be Blood

Tarefa difícil tentar descrever em palavras o mais recente trabalho de Paul T. Anderson, Sangue Negro (There Will Be Blood, 2007). Mas afirmo que já é um dos melhores deste ano. Li alguns críticos acusarem o filme de Anderson de ser estruturalmente confuso: uma parte inicial com poucos diálogos contrastando com uma parte final verborrágica. Essa suposta confusão estrutural acaba sendo uma das qualidades do filme.

Em seu filme anterior, Embriagado de Amor (Punch Drunk Love, 2002), Anderson já propunha certa subversão estrutural: logo no começo, só lembrar do acidente de carro que Barry Egan (Adam Sandler) presencia e o harmônio deixado misteriosamente em frente à sua loja segundos antes do objeto ser atropelado por um caminhão. Nada será comentado sobre o acidente, nem sobre quem deixou o harmônio ali e o significado disso ao longo do filme. Nem precisa. É intencional. E uma das grandes belezas do filme.

Voltando a Sangue Negro, poderia comentar o magnífico início Kubrickiano sem diálogos ou o tour de force que é a seqüência do acidente que o filho de Daniel Plainview (Daniel Day-Lewis) fica surdo. Entretanto, prefiro outras mais sutis, como a que Paul Sunday (Paul Dano), irmão gêmeo de Eli Sunday, vai visitar Daniel a fim de contar sobre o petróleo que tem no rancho de sua família.

Cenas de diálogos normalmente são decupadas burocraticamente em planos gerais - que servem de localização -, planos médios e close ups que fornecem uma cobertura geral para o trabalho do montador. Paul T. Anderson vai de encontro a isso: monta cenas de diálogo dramaticamente precisas e coesas que unem mise en scène e continuidade clássica.

Quando Paul entra no escritório de Daniel, ele é um completo desconhecido. Vemos Paul apenas de costas em primeiro plano e Daniel ao fundo. Detalhe: se Anderson abrisse a cena com um plano geral, revelando tudo, perderia todo o contexto dramático de Paul ser um desconhecido e como ele vai conseguindo aos poucos a atenção de todos.


Daniel diz a Paul para sentar, o plano abre revelando Fletcher Hamilton (Ciarán Hinds) à direita, que até então estava sendo ocultado por Paul.


Daniel e Fletcher se interessam pelo que Paul tem a dizer, o plano fecha ainda mais nos três, tanto que Daniel se inclina mais para frente na cadeira.

Quando Paul diz “é bom que vocês não pensem que sou estúpido”, a percepção da cena muda, ele consegue certo respeito e atenção dos dois, em um zoom para direita o plano fecha nele.

Primeiramente, Anderson constrói o campo e contracampo dramático entre Paul e Daniel, revelando H.W. Plainview (Dillon Freasier), filho de Daniel, atrás de Paul, e por último com Fletcher.



Impressionante como o cinema pode ser belo em apenas alguns segundos.

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Daniel vai com seu filho à fazenda dos Sundays averiguar a veracidade das informações dadas por Paul. Acaba encontrando petróleo e decide comprar a fazenda. Para isso, tenta negociar com Abel Sunday (David Willis) - pai de Paul e Eli - na hora do jantar.

Anderson abre a cena com um plano geral de localização. Abel pede para que o restante da família saia, ficando apenas ele, Daniel e o seu filho e Eli.

Interessante que Daniel tem sua atenção toda voltada para negociar com Abel, ainda não conhece Eli, que está à direita.

Durante a conversa, Eli questiona várias vezes o valor que Daniel pretende pagar pela fazenda, Abel não consegue decidir nada. A cena ganha outro contexto dramático: a atenção de Daniel fica toda para Eli, que sabe que ele não pretende só caçar codornas ali, mas sim roubar o petróleo sem pagar nada a eles. Abel é bloqueado na cena e fica à esquerda.

Eli é cada vez mais incisivo ao questionar Daniel: pede mais dinheiro pela fazenda e para a sua igreja. O embate dramático entre os dois está montado.


Só vemos Abel novamente depois que Eli e Daniel chegam a um acordo, em um plano mais fechado que mostra mais a sua submissão do qualquer outra postura.


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É simplesmente Scorsesiana a seqüência que Henry Brands (Kevin J. O'Connor) tenta enganar Daniel dizendo que é seu irmão. Henry chega à cidade de trem, mas nem vemos seu rosto. Além de ser uma preparação e economia para o plano posterior, mostra o que Henry sente quando chega à cidade.

Aproveitando o raccord do plano anterior, corta para Daniel de costas andando em direção à sua casa. Perceba que ele está bem nítido no plano.

Daniel anda mais um pouco e acontece uma alternância de foco: Henry que primeiramente aparece ao fundo fora de foco, inverte para Daniel em primeiro plano fora de foco e Henry ao fundo. Anderson nos faz sentir o que os personagens sentem. Daniel está confuso, não sabe bem quem é Henry.


Daniel continua caminhando. Henry diz que é o seu irmão e que trouxe uma carta da irmã deles: Anabel.



Somente quando Daniel se aproxima e parece um pouco mais clara as intenções de Henry, os dois dividem o mesmo plano em igualdade.

Conforme Henry vai conseguindo a confiança de Daniel, o plano vai fechando mais ainda nos dois.


Ele consegue a confiança de Daniel e Anderson decupa o campo e contracampo que sela isso. Até a expressão facial deles muda. O clima vira familiar.





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Daniel pretende arrendar a fazenda de William Bandy (Colton Woodward) para construir uma linha de dutos que diminuiria seus gastos com transportes, mas Bandy só a vende com uma condição: que Daniel seja batizado na igreja da Terceira Revelação de Eli. A fim de facilitar o seu envolvimento com a comunidade, Daniel manda trazer seu filho de volta que havia sido mandado por ele para uma escola de surdos. O reencontro acontece em um belo travelling - da esquerda para a direita - que começa dos operários construindo os dutos até os dois se abraçarem.





Anderson deixa tão clara as verdadeiras intenções de Daniel, que quando eles se abraçam a câmera nem registra esse momento de ternura, fica a distância, em plano geral.



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O principal ponto que pretendo salientar nessa próxima cena, que acontece em um restaurante logo após o reencontro de Daniel com o seu filho, é a forma como Anderson muda o posicionamento da câmera de acordo com os sentimentos de Daniel. Quando o plano abre no restaurante, a câmera está próxima à mesa, há apenas duas mudanças de plano que mais servem de localização.



Tiford entra no restaurante, com quem Daniel teve uma briga por causa de compra de terras, e vai cumprimentá-los.

Detalhe: quando Tiford chega próximo à mesa de Daniel, a câmera está um pouco mais longe, agora também enquadra, em primeiro plano, parte da mesa que Tiford está sentado. A simples presença dele ali incomoda Daniel, o que fica registrado no enquadramento. Até o momento que Daniel vai até à mesa de Tiford discutir com ele.




A maioria das cenas que comentei de Sangue Negro neste tópico passa batida aos olhos do grande público. Não exatamente por culpa sua, mas pelo imenso esforço que a crítica cinematográfica tem em sempre evidenciar apenas o subtexto dos filmes, a mensagem. E não como se conta uma história, com quais recursos, especificamente cinematográficos, o diretor utiliza. O cinema ainda continua sofrendo o estigma de ser apenas um galho quebrado da literatura. Mas, na verdade, é como uma árvore forte e frutífera que tem suas raízes bem encravadas na terra há mais de 100 anos.

Breno Yared

7 comentários:

Anônimo disse...

Breno, concordo plenamente com você! As pessoas se prendem muito ao roteiro do filme, ao que o filme quer "passar", mas parece que esquecem completamente como se conta essa história, ou seja: os recurso especificamente cinematográficos. É inegável que Cinema e Literatura andam colados, mas compará-los chega a ser um erro tremendo, pois são estruturas de concepção e técnicas de criação totalmente diferentes umas das outras. Pobre daquele que compara uma adptação cinematográfica à obra literária na qual ela é baseada. Não entendo o por quê das pessoas não conseguirem perceber o fato de que são mídias diversas e o que pode funcionar muito bem pra uma, talvez não funcione pra outra. Enfim... E a respeito do belíssimo filme do Paul Thomas Anderson... "Sangue Negro", pra mim foi um banho gelado em pleno deserto. Que o PTA tem tudo pra ser o novo gênio do Cinema, eu já sabia. "Magnólia" e "Embriagado de Amor" são a prova disso. Mas "Sangue Negro" é de uma sensibilidade assustadora, de um brilhantismo ímpar. A interpretação do Daniel Day-Lewis é de deixar qualquer um sem fôlego. E o Paul Dano como Eli cumpriu muito bem seu papel. Ele poderia ter sumido totalmente do filme, pois o DDL é tão visceral, tão legítimo em sua atuação que poderia ter apagado o brilho do Dano, que aliás, promete e muito. Pra mim, os pontos altos de "Sangue Negro" são o começo, como você mesmo disse, altamente Kubrickiano, a seqüência em que Paul Sunday se apresenta ao Daniel e o desfecho. Sem esquecer o acidente do filho do Daniel, claro. Porém, os quase 15 minutos iniciais são meus favoritos mesmo. A forma como o PTA tenta nos fazer entender a personalidade daquele homem sem dizer uma palavra sequer é genial. E isso que é o Cinema!

Mel.

Breno Yared disse...

Depois do comentário da Mel, não preciso dizer mais nada. Amém!

Anônimo disse...

Primeira vez que leio o teu blog. Gostei pra caramba. Eu vi Sangue Negro e enlouqueci... senti falta só de comentários sobre a iluminação que eu achei fenomenal, apesar de não entender muto sobre...
e, sobre o texto, duas coisitas:
- pra mim, no íniciio da cena em que ele conhece o irmão, não fica claro quem é quem.
- acho confusa a relação entre "pai" e "filho" principalmente nas cenas que seguem após o momento em que ela fica surda, não acredito que ele apenas usava a criança... mas também não vejo muitos afetos.

mariana

Breno Yared disse...

Oi, Mariana!

Quando eu assisti ao filme pela primeira vez, também achei confusa a forma como Anderson apresenta os dois irmãos. Só aos poucos fui percebendo que eram gêmeos, e que quem aparece pela primeira – na cena que descrevi aqui – é Paul, não Eli. Mesmo assim, Paul diz o nome dele na cena, sim. Parece um pouco confusa porque Paul surge essa única vez no filme todo e, fisicamente, os dois personagens interpretados por Paul Dano são muito parecidos.

O que eu sei é que Paul Dano não faria Eli. Quem faria seria o autor Kel O'Neill, mas ele abandonou as filmagens logo no começo. Por isso que Dano fez os dois papéis.

Eu também acho que, até certo ponto, Daniel não usava o filho, Mariana. Isso fica claro na cena do acidente: a forma como ele tenta protegê-lo e depois o afeto com que cuida, como na cena em que o obriga a tomar leite. Porém, Daniel está sempre em conflito com o mundo a sua volta, o que fica claro na forma com que Anderson usa a trilha destoante.

É por isso que acho a cena em que eles se reencontram - a que descrevi no post – tão comovente. Mesmo que a câmera estando longe, evidencia as verdadeiras intenções de Daniel. O mesmo pai que mostrou certo afeto pelo filho, é indiferente a ele no reencontro e na cena final. Esse contraste, essa dualidade, esse conflito, é Daniel.

O contraste também é utilizado na fotografia: o claro e o escuro, como nos planos gerais do início com os planos fechados de dentro da caverna em que Daniel busca petróleo. Assim como o contraste dos personagens na contraluz, entre o primeiro plano e fundo do quadro, criando apenas silhuetas. E tudo isso em maravilhoso Scope.

Valeu pela visita! Beijos!

TIAGO disse...

Parabens Yared
!!!!!

Breno Yared disse...

Valeu pela visita, Tiago. Volte sempre! Abraço!

Iradilson Costa disse...
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