segunda-feira, 7 de abril de 2008

Shyamalaneistas, uni-vos! (Parte 2)

Alguns ainda devem lembrar que A Dama na Água (Lady in the Water, 2006) foi o filme que fez M. Nigth Shyamalan romper com os executivos do estúdio Disney. No livro The Man Who Heard Voices: Or, How M. Night Shyamalan Risked His Career on a Fairy Tale (O Homem que Ouvia Vozes: como M. Night Shyamalan Arriscou sua Carreira por um Conto de Fadas), o diretor indiano conta o seu lado da história escrito pelo jornalista Michael Bamberger da Sports Illustrated. No final, Shyamalan acabou realizando seu filme com a Warner Brothers, mas pagou um preço alto: foi fracasso de crítica e público, quase afundando a sua carreira.

O principal motivo do rompimento com a Disney foi uma questão de princípios: Shyamalan acreditava piamente no material baseado em conto infantil de sua própria autoria - escrito para os seus filhos -, até mesmo como uma oportunidade de dar novos rumos à sua carreia enterrando de vez o que ele mesmo reformulou: o final-surpresa. Já a Disney torcia o nariz para o conto de fadas, que segundo eles, soava confuso. Crítica e público não entenderam a proposta do filme; na verdade, poucos entendem que Shyamalan é um reformista do cinema de gênero, até brinca com essas convenções.

Confesso que foi tarefa difícil selecionar as minhas cenas preferidas quando revi o filme para postar aqui. Sobretudo pelo minucioso cuidado de Shyamalan com a composição dos enquadramentos em praticamente todo o filme. Escolhi cinco, mas acabei deixando algumas ótimas cenas de fora. Então vamos a elas.

Cena 1:

Na primeira parte em que a mãe da chinesa Young-soon revela a Cleveland informações do conto infantil que pode ajudar Story, sabemos que a Narf precisa ser vista pelo humano que foi escolhido para ela. Se a Narf despertar algo nele, poderá voltar com a Grand Eatlon - uma águia gigante - para casa, tornando-se assim livre. Cleveland resolver ajudar Story sabendo que o humano escolhido também está escrevendo algo importante.

Em um dos encontros corriqueiros com um dos moradores do prédio, Vicki Ran (papel interpretado por Shyamalan), Cleveland descobre que ele está escrevendo um livro: “O Livro de Receitas”. Assim o leva até Story para saber se ele, Vicki, é o escolhido.

Na cena, Shyamalan já nos antecipa visualmente que Cleveland é o escolhido, não Vicky ou outro personagem. Perceba que desde o exato momento em que Vicki entra, ele já está mal-enquadrado e fora de foco; enquanto Cleveland, mesmo ao fundo, preenche melhor a cena.

Story está à direita do enquadramento.

Mesmo durante a conversa, Vicky está sempre de costa ou mal-enquadrado à esquerda, enquanto Cleveland sempre domina.


Logo após Vicky sair da casa, o enquadramento muda: vemos Story em primeiro plano fora de foco e Cleveland na profundidade de campo.

No momento que Cleveland caminha em direção a Story, Shyamalan afirma mais uma vez a ligação entre eles com uma simples alternância de foco: quando ele se aproxima de Story, então fora de foco, a vemos bem nítida no plano.




Cena 2:

Em outra cena que Cleveland procura o escolhido, vemos Sr Dury (Jeffrey Wright) e o seu filho Joey (Noah Gray-Cabey). Mais para frente no filme saberemos queo intérprete é Joey, não Sr Dury. O que Shyamalan já nos antecipa visualmente.

Primeiramente, vemos o jogo de palavras cruzadas que Sr Dury usará como instrumento para interpretar a mensagem.

Em uma panorâmica para esquerda, vemos Joey comendo cereais tendo a caixa ao seu lado - caixa essa no qual ele interpretará a mensagem como o verdadeiro intérprete.

Veja que o diálogo em toda a cena é entre Cleveland e Sr Dury, mas Joey está sempre entre eles, em uma parte do enquadramento, como se estivesse captando tudo.






Cena 3:

Shyamalan é um dos raros cineastas atuais que bloqueia as personagens no enquadramento, sempre de acordo com o contexto dramático da cena. Quando Cleveland trás uma lama chamada Kii que pode curar Story do ataque do scrunt, entrega a ela.


Story precisa respeitar regras, se não sofre as consequências. Uma das regras é não poder falar sobre o mundo azul de onde ela vem. Por isso, durante todo decorrer do diálogo com Cleveland, nem vemos o seu rosto. Sem cortes, a câmera enquadra apenas o de Cleveland. Escolhas como essa fazem diferença, estruturam dramaticamente uma cena.


Cena 4:

Essa é uma das minhas cenas preferidas do filme. Igual a anterior, Shyamalan bloqueia personagens. Na primeira vez que Cleveland vai ao lado de Young-soon conhecer a fábula contada pela Sra Choi (June Kyoto Lu) sobre a Narf, Shyamalan optou por um plano de conjunto em que a câmera está dentro da casa.


Em outra cena que Cleveland vai atrás de Young-soon a fim de saber mais detalhes sobre a fábula, ela não está em casa, apenas a mãe, Sra. Choi - que é quem conta a fábula para Cleveland, tendo Young-soon como intérprete. Choi liga para a filha, mas como compor visualmente essa sutil diferença. Simples: a câmera fica fora da casa, bloqueando Choi, que mesmo sendo quem conhece a fábula, não tem como se comunicar com Cleveland sem a filha.

Quando Choi passa o telefone para Cleveland falar com Young-soon, o plano fecha ainda mais, bloqueando-a completamente ou deixando-a fora de foco à esquerda do enquadramento.


Mesmo quando Cleveland entrega o telefone de volta a Choi, ela continua bloqueada dentro da casa.


Cena 5:

Aqui, mais uma vez, o indiano afirma uma conexão única entre Clevenland e Story em belo e sutil travelling da direira para esquerda. Com Cleveland sentado em frente à Story que está deitada. Um poema em imagem.






Breno Yared

15 comentários:

Juliano Ferreira disse...

Grande Breno! Boas escolhas. Uma cena mais linda que a outra.

Já tô esperando a parte 3. Pressão. rs

Abraço!

Breno Yared disse...

Eu pretendo continuar este post em várias partes com os outros filmdes do Shyamalan, Juliano. MAs se pedirem uma parte 3 só com outras cenas de "A Dama na Água", posso colocar. Abraço!

Daniel "God of War" Belém-PA disse...

Ihhh Breno então tá ruim pra mim! Vou fazer um esforço e tentar assistir "A Dama" de novo em dvd mas, sinceramente, prefiro de longe "Sinais". Pelo menos tô aprendendo contigo essa tal de Mise-en-scène. Valew.

Breno Yared disse...

Mas "A Dama na Água" também não é perfeito, Daniel. Longe disso. Em alguns momentos desanda aqui e ali, o negócio é entender o contexto do filme na carreira do Shyamalan. Queria escrever mais sobre isso no tópico, mas assim fugiria da proposta do que eu quero fazer do blog.

Anônimo disse...

Lindo post!
Essa cena 5 é poesia pura...
Bêjo
Andrea

Marco Antônio Pereira disse...

breno. Como vc fez pra colocar aquelas ferramentas no lado direito do seu blog?
Blogueiros on line e visitas e blogs favoritos? Vou colocar o seu no meu. Me diz aí.
Abração.

Breno Yared disse...

Primeiro tu clicas no link à direita online (para visitantes on-line)e depois em Hit conuter (para o número de visitas) e cadastra-te neles. Depois copia o HTML que vai aparecer e adiciona no teu blog: clicando em "layout", "elementos da página" e "add a page element", depois de clicares nesta última opção, vai em "HTML/JavaScript
Adicionar funcionalidade de terceiros ou outro código a seu blog", onde vais colocar o HTML que eles te deram. Só isso.

Qual o endereço do teu blog? Abraço!

Pin Hole disse...

Aproveito este espaço para comunicar a 5ª edição do Panorama Internacional Coisa de Cinema que acontecerá em agosto na cidade de Salvador/BA.
O Festival está com as inscrições abertas para Mostra Competitiva até o dia 31 de maio. Informações no site www.coisadecinema.com.br/hotsite.
Entre os nomes confirmados para o Festival está o de Beto Brant para o júri e José Luís Guerin (la ciudad de Sylvia) e Andrea Tonacci (Serras da desordem) que virão lançar seus filmes, ainda inéditos em Salvador.

Fernando Segtowick disse...

Breno
Te conheço apenas dos comentários no blog do Ronaldo. Foi através dele que cheguei aqui, gostei bastante e posso dizer tranquilo que sou shyamalaneista tb. Espero "the happening" para fazer mais uma referência ao mestre.

abs

Breno Yared disse...

Conheço-te dos filmes que já fizeste em Belém, Fernando, mas infelizmente como não moro mais em Belém há anos, acabei não vendo nenhum deles. Quem sabe quando for a Belém consiga vê-los.

Também espero ansiosamente por "The Happening". Já viste viste o trailer? Quero ver qual caminho ele seguirá após "A Dama na Água". Mesmo porque é a carreira dele que está em jogo. Abraço!

Fernando Segtowick disse...

Breno
Vi sim, o trailer e me preocupa bastante o que vai acontecer com a carreira dele. Gostei muito do trabalho do som, mesmo ouvindo via youtube, gosto muito de "The Village", que tem um som muito bom. Vi esse num cinema em SP, o que faz toda a diferença. Para mim, A Vila é uma obra-prima, mas qdo comento isso, todo mundo quer me bater, eu fico super feliz..hahaha, escrevi um roteiro cuja referencia é total a ela. Depois de Kieslowski, para mim só mesmo Shyamalan

Breno Yared disse...

Para conseguir fazer "The Happening", ele teve que buscar investimento até na Índia. Se por um acaso seu novo filme fracassar, ficará complicado para ele. Acredito que Shyamalan não quer fazer filmes independentes, mas se manter dentro da indústria.

Shyamalan sempre trabalha com sound designer em seus filmes, Fernando. O que cria uma estética e atmosfera única. O trabalho de som em “Sinais” é espetacular.

Também acho “A Vila” obra-prima. Irei fazer outros posts sobre todos os filmes dele. Abraço!

Fernando Carvalho - Belém Pa disse...

Grande trabalho, irmão Breno. É exatamente esse tipo de trabalho que dá gosto de ver quando se trata de discutir cinema. O público em geral ignora (não por culpa dele) as minúncias da Mis'en cene e abrir o diálogo sobre isso é com certeza uma forma mais democrática de mostrar às pessoas a beleza dessa arte tão mal compreendida, o público com certeza sairá beneficiado e o Shyamalan com certeza merece.

Breno Yared disse...

Valeu, Fernando! Como eu já comentei lá no blog do Mark: nós cinéfilos temos que arregaçar as mangas e mostrar porque amamos tanto esta arte. Propor um olhar diferente, mas sem ser prolixo ou hermético, e sim claro e direto. A grande maioria do público, ainda não está muito acostumada com a mise-en-scène. Arte praticamente ignorada.

Bruno disse...

Breno, gostei muito do seu blog.

Quando eu assisti A Dama na Agua eu percebi algumas coisas que vc escreveu mas nao sabia os nomes corretos para os enquadramentos.

Qual livro voce inidica sobre a Mise en Scene?

Grato.