terça-feira, 1 de abril de 2008

Shyamalaneistas, uni-vos! (Parte 1)

Eu sou um deles. Não nego. Mas não sou membro de uma possível nova facção islâmica rival aos xiitas e sunitas, muito menos militante de um novo Manifesto Comunista de Karl Marx. Nem somos, na verdade, uma seita. Os shyamalaneistas são apenas apreciadores e defensores – bom lembrar, fanáticos e radicais, única semelhança com os adoradores do Alcorão - do cinema de M. Night Shyamalan. É verdade que conheço raríssimos shyamalaneistas convictos - apenas dois amigos -, mas já é um começo.

Nós também não fazemos ataques terroristas como os fundamentalistas islâmicos, nem passeatas como os socialistas, mas quando lemos aberrações sobre os filmes de Shyamalan, como os que já li acerca de A Dama na Água (Lady in the Water, 2006) e Corpo Fechado (Unbreakable, 2000), a vontade é de jogar uma bomba na cara do dito cujo: os personagens aceitavam as coisas por mais absurdas que fossem com muita naturalidade” e “o filme é lento, cansativo, e se você pensa que é um novo ‘O Sexto Sentido’, esqueça!" Nossa única arma contra atrocidades como essas são os argumentos. E convenhamos: dos que citei, são tão fáceis de serem rebatidos, que nem perderei tempo rebatendo-os apenas com texto, farei algo bem melhor.

Outro dia conversando com dois amigos, comentamos que “Shyamalan esfrega na nossa cara que é bom”. Então é isso que farei: esfregarei na cara dos leitores do blog o quanto ele é talentoso como cineasta. Meu discurso pode parecer afetadinho e exagerado, mas lembre-se: igual aos franceses da Nouvelle Vague fizeram nos Cahiers Du Cinéma com Alfred Hitchcock, Howard Hawks, John Ford, Max Ophüls, Nicolas Ray defendendo a “teoria autoral”, também é preciso exaltar os cineastas contemporâneos, como Shyamalan, que seguem os pilares do movimento.

Vamos logo ao que interessa. Já tem texto demais – e essa não é a proposta do blog. Um exemplo que eu sempre cito - e amo -, nos filmes de Shyamalan, é a aparição de Story, em A Dama na Água. A forma como o diretor simplesmente guarda o contracampo durante os primeiros minutos de filme, até o momento em que vemos Story (Bryce Dallas Howard) pela primeira vez em um belo close up de seu rosto no quarto de Cleveland (Paul Giamatti).

Tudo começa no primeiro plano, na cena sob a pia, no qual não vemos o que Cleveland tenta matar - se nós víssemos seria o contracampo.

A cena continua sem corte, e Shyamalan apenas abre o plano, que também acaba sendo de localização.

Assim, os personagens principais são apresentados apenas com o recurso do campo, sem o contracampo. Por isso que não vemos o rosto da chinesa Choi Young-soon (Cindy Cheung) quando Cleveland a apresenta ao crítico de cinema Harry Farber (Bob Balaban).

Sr. Leeds (Bill Irwin) é apresentado em um plano fixo, com Cleveland e Farber desfocados em primeiro plano.

Reggie (Freddy Rodríguez) surge numa seqüência sem cortes, no qual Shyamalan apenas usa uma “câmera na mão” para mostrá-los, passando de um para outro no plano.

Da Sra Bell (Mary Beth Hurt) vemos apenas um plano de detalhe do tapete de seu apartamento, que também revela sua paixão por gatos.

Continuando com os amigos que passam o dia discutindo sobre assuntos variados, em uma sequência sem cortes que termina com Cleveland pegando o lixo ao lado da porta.

Logo após se despedir de Farber, Cleveland volta para seu quarto e adormece - vemos apenas a TV ao fundo que revela acontecimentos do mundo lá fora do hotel.

Então, ele acorda e pega algo próximo à janela que dá para a piscina do hotel. Com Cleveland desfocado em primeiro plano, Shyamalan chama atenção para o que ocorrerá ao fundo, dentro da piscina.

Ao se abaixar, vemos Story pela primeira vez que passa rapidamente na piscina. Esse plano é o campo, que antecede o primeiro contracampo que vem logo a seguir.

Assim, temos o primeiro recurso de campo e contracampo, que já indica a existência de alguma ligação entre os dois.

Cleveland sai do quarto e tenta descobrir o quê estava nadando na piscina.

Mas acaba escorregando e fica desacordado.

Story o salvo e leva-o de volta ao quarto. Cleveland desperta e olha em direção ao chão, o que vem a ser o campo.

Na cena seguinte vemos o plano subjetivo de Cleveland vendo o rastro que Story deixou, que é o contracampo.

Corta novamente para ele que olha em direção a Story, o que novamente é o campo.

Então finalmente vemos o tão esperado e hipnótico close up do rosto de Story, que é o campo e contracampo entre os dois, mostrando que eles têm uma conexão única, o cerne do filme. Só os dois dividem os mesmos planos de forma tão singela.

Lógico que como um shyamalaneista convicto, eu não poderia fazer apenas um post sobre Shyamalan. No próximo, comentarei sobre outras belas cenas de A Dama na Água. Shyamalaneistas, uni-vos!

Breno Yared

16 comentários:

andrea disse...

Tudo bem que vc e Fábia negaram minha entrada na seita e ainda fizeram desaforo... tudo bem! (ahammmm)
Mas, ainda assim, tenho que admitir que seu post ficou um arraso, e faz jus ao filme - que eu gosdimais, vc sabe.
Quanto a vc e Fábia, a gente acaba de resolver o assunto depois - quando eu chamar os dois pra contar sobre The Happening (que, obviamente, vou ver antes e na telona!) ehehehehehe

Parabéns, Brenowski.
Seu blog tá show!.
Beijos

Anônimo disse...

É isso aí. Enaltecendo o sublime Shyamalan. Sabe meu caro, até hoje não compreendo como a maioria não enxerga talento no cara, fico com a pulga atrás do 'corpo' mesmo. “Sinais”, “ Corpo Fechado” e “A Dama na Água” são aulas de cinema. Shyamalan me ‘engana’, mas me engana fazendo cinema.
- Mark -

Daniel Consani disse...

Grande Shyamalan! Parabéns por enaltecer o trabalho de um dos melhores cineastas da atualidade!

Marco Antônio Pereira disse...

CAra! muito legal seu blog. Gostei demais. continua postando mesmo! posso entrar na Seita? tsrsrsrs

lella disse...

Breno,
eu me devendo ver "A Dama na Água" desde a primeira vez que eu vi o que escrevera sobre ela no orkut. A lista só cresce.
E aqui no Blog, aguçou mais em ver o filme. Ficou um show!

beijo grande,

lella disse...

Faltou um "estou" no post anterior ...rs

Breno Yared disse...

Não pode ser um Shyamalaneista assim da noite para o dia, Andrea. Antes nem gostavas dos filmes dele. rs

Tens que passar passar por uma iniciação para seres aprovada na seita.

Breno Yared disse...

Eu também não consigo entender, Mark. O Shyamalan esfrega na tua cara que é bom. E ainda faz tudo isso dentro de blockbusters, dentro da indústria. Talvez o problema seja com a platéia, não com o diretor.

Valeu, Daniel e Marco! Como vocÊs encontram o blog? Abraço!

O teu blog também tá ótimo, Val. Beijos!

Anônimo disse...

Nada como falar sobre uma de nossas paix�es, Breno. Toda a nossa discuss�o sobre o Cinema de Shyamalan, est� a�. Como n�o se deixar afetar com a sua arte, sua mise-en-sc�ne. Ele � junto com Paul Thomas Anderson, um cineasta contempor�neo que mais merece meu respeito e minha paix�o.

Ritual de inicia�o para a Andrea, sim. Eu e o Breno pensaremos em algo bem baviano para ela... rs.

F�bia Martins

Daniel "God of War" Belém-PA disse...

Breno, eu sei que tu não vai me aceitar na seita (não deu pra evitar a cacofonia) porque eu já tinha te falado que odiei "A Dama na Água". Realmente achei a historinha um saco, principalmente comparado a "Sinais" e "Corpo Fechado", nessa ordem, pra mim os melhores do M. Night. Todavia, minha decepção com "A Dama" não reduziu minha admiração pelo trabalho do cara, pelo contrário, tô ansioso pra que "The Happening" estréie logo. Quanto ao post, tá show! Valew!

Breno Yared disse...

A gente pode usar aquele instrumento de tortura chamado dama-de-ferro com a Andrea, Fábia. Que tem em um filme do Bava. Se ela sobreviver, quem sabe entra no grupo.

Só pode ser um shamalaneista se gostar de "A Dama na Água", Daniel.

Anônimo disse...

Bem, eu ainda não vi "A Dama na Água" e também não vejo o Shyamalan com os olhos que você vê. Eu acho que os roteiros dos filmes dele são inteligentes e ele consegue deselvolvê-los muito bem. Acho que pelo fato de eu ser leiga na parte técnica, não consigo enxergar todas as maravilhas da mise-en-scène nos filmes dele, mas assim que eu estiver afiada no assunto, talvez passe a me encaixar no grupo dos shyamalaneístas.

Beijão, Breno!

Anônimo disse...

Esqueci de assinar o meu comentário. Que tapada!

Fui eu quem comentei acima, tá Breno? A Mel.

Beijão!

Mel.

andrea disse...

Caramba!
Me senti como César agora :(
Com amigos assim, quem precisa de inimigos?!
Fábia e Breno - caderninho negro... anotadinhos, os dois - em negrito e grifados! Humpft!
Bonequinhos em confecção...sim, sim, feitiçaria básica ^^

Juliano Ferreira disse...

Grande Breno! Belo post para o nosso caro Shyamalan. Tomara que seja o primeiro de muitos. Material não vai faltar! Só de "A Dama na Água" dá pra escrever uma meia dúzia.

Parabéns pelo blog, que já é um sucesso!

Grande abraço!
Juliano

Breno Yared disse...

O Shyamalan é melhor diretor que roteirista, Mel.

Pelo menos vê se faz um bonequinho bonito de mim, Andrea.

Hoje irei postar a segunda parte do tópico, Juliano. E ainda pretendo escrever sobre todos os filmes dele. Abraço!