Quinta-feira, 16 de Julho de 2009

Gibis para Ficarem na Estante: Coringa


Depois de muuuuuito tempo, eis que volto com algumas dicas de gibis que se encontram à venda na internet, na Saraiva ou em alguma banca próxima da sua casa – algo cada vez mais raro nas grandes cidades, pelo menos não como antigamente o era.

Coringa – De Brian Azzarello e Lee Bermejo (Panini Comics):

Brian Azzarrello produziu uma excelente série em quadrinhos que merece meu respeito e uma olhadinha sua: 100 Balas. Ao lado do argentino Eduardo Riso, o autor conta várias histórias de pessoas que são aboradadas por um agente misterioso – nem da CIA, nem do FBI – que cruza os seus caminhos com uma arma que não pode ter suas balas rastreadas.

Ou seja: você sofreu ao ver seu filho morto na mão de um bandido e está louco por vingança, mas não deseja ser preso? Sem problemas: o agente surge a sua frente, lhe entrega a arma e aquele bastardo some da existência, pelas suas mãos. 100 Balas já terminou nos EUA e no Brasil parece estar abandonada graças a falência da melhor editora de quadrinhos já surgidas nesses últimos anos, a Pixel Magazine.


Outro bom trabalho do carequinha que é marido da excelente artista Jill Thompson – trabalhou muitas vezes com o mestre Neil Gaiman – é a sua passagem pelo mais safado dos personagens já criados por Alan Moore, Constantine, na revista Hellblazer.

É com essa pecha de “original” que o cerca, que Azzarello aterrizou nas terras dos heróis. Dessa passagem saiu um trabalho interessante na série regular do Batman – com seu parceiro de 100 Balas nos desenhos (recomendo) – uma péssima sequência a frente da série regular do Superman - ao lado do desenhista mais popular dos quadrinhos, Jim Lee (corra desse lixo pelo amor de Deus) – e um trabalho menos popular e bem mais oportunista, já que o último filme do batman estabeleceu uma nova mística para o Coringa.

Assim chegamos a Coringa. Minissérie comandada por Azzarelo e desenhada pelo excelente capista Lee Bermejo. Azzarello tenta colher frutos em uma árvore já tantas vezes explorada dentro dos 70 anos de lenda do homem morcego: o Coringa foi liberado do Asilo Arkham – se você puder comprar Asilo Arkham, uma série dos anos 80/90 escrita por Grant Morrinson, você terá uma noção exata de como isso já foi melhor explorado – e ira transformar a cidade em um inferno.

É isso que você verá nessa história, por três pontos de vista diferentes: a dos adversários do Morcegão, a do próprio Coringa – deturpada de sua características habituais dos quadrinhos e bem mais próxima do que foi mostrado no filme em que Heath Ledger o encarnou - e a de um capanga recém lançado ao circo de crimes de Gothan.

Por essa diversidade de foco, a história acaba crescendo em partes importantes, mas empaca em momentos chave. O final pareceu mais bem resolvido do que o contexto, principalmente pelo fato de Batman aparecer com roupas do início de sua carreira, localizando o fã e inveterado comprador de quadrinhos em algum lugar em que realmente tudo aquilo poderia ocorrer e sob aqueles aspectos.

Enfim, se for comprar algo com a assinatura de Azzarello compre 100 Balas. Esse Coringa foi interessante, mas nada mais do que isso e pior: mamou na nova lenda criada pelo cinema, mas sem a mesma desenvoltura. Nota 6,5!
Rodrigo Castro

Sábado, 4 de Julho de 2009

Antártida

As geleiras da Antártida caminham três milímetros por ano em nossa direção. Calcular quando chegarão. Prever, num filme, o que acontecerá.


Michelangelo Antonioni



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Um filme de gênero catástrofe dirigido por Michelangelo Antonioni? Continuando com as postagens dos contos do livro O Fio Perigoso das Coisas e Outras Histórias (1983) – que prometi alguns posts atrás -, quando reli o acima – que mais parece uma sinopse -, imaginei-o adaptado para o cinema como um filme-catástrofe, algo entre A Aventura (L’ Aventura; 1959), de Antonioni, com o americano Fim dos Tempos (The Happening; 2008), de M. Night Shyamalan.


Se o diretor indiano costuma reinventar e brincar com as convenções dos filmes de gênero, não seria nenhum equívoco afirmar que Antonioni as subvertia, mas no cinema italiano. Veja: A Aventura, por exemplo, se fosse feito em hollywood, poderia muito bem desmembrar-se num típico filme policial; ou então O Passageiro – Profissão Repórter (Professione: Reporter; 1975) num triller ou roadmovie. Mas Antonioni sempre foi além. Partia das premissas dos filmes de gênero, para subvertê-los, criando suas próprias convenções e estilo.


Agora pense num típico filme-catástrofe do cinema americano atual, como O Dia Depois de Amanhã (The Day After Tomorrow; 2004), de Roland Emmerich, e Impacto Profundo (Deep Impact; 1998), de Mimi Leder. Repletos de apelos melodramáticos e de manifestos a favor da preservação da natureza e de que o homem contemporâneo anda doente nas suas relações com o próximo. A premissa do imaginário filme de Antonioni, Antártida, poderia até partir do mesmo ponto dos filmes citados de Emmerich e Leder, mas teria pretensões e um rumo completamente diferente.


O herói de Antártida poderia ser como Sandro (
Gabriele Ferzett), o de A Aventura; e como neste – o sumiço misterioso de Anna (Lea Massari) -, aquele poderia partir do encontro das geleiras da Antártida com uma grande cidade, mas aos poucos, assim como acontece com Anna, Antonioni deixaria tal premissa de lado, construindo outro rumo para suas personagens, como a inutilidade da história de amor entre Sandro e Claudia (Monica Vitti). E assim como Fim dos Tempos, de Shyamalan, Antártida seria contado, principalmente, por imagens, não por enredo, podendo ser uma aventura moral, ideológica ou sentimental.

Breno Yared

Sábado, 13 de Junho de 2009

Nossa Estrela no Céu Cada Vez Mais Distante

Navegando pelo Jornal Pessoal, a agenda amazônica do meu tio, Lúcio Flávio Pinto, acabei encontrando um belo texto dele sobre os 60 anos de Chico Buarque de Holanda. Caiu como uma luva. Porque eu estava finalizando um texto sobre o verdadeiro Rei da música nacional: Chico Buarque.

Não no sentido comercial do “Rei” da Globo, Roberto Carlos, mas no sentido pleno de letrista, músico, poeta e homem comum. Chico é um artista genial, mas vive como os homens simples de suas músicas. Como eu e você. Deixarei o meu texto sobre o grande Chico mais para frente. Agora transcrevo aqui o do tio Lúcio.

Breno Yared


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Chico Buarque de Holanda e eu completamos 60 anos nesta mesma década. Tinha que começar esta crônica com essa igualdade. É a única aproximação que há entre nós. Somos da mesma geração, que ele expressa como poucos. É uma felicidade ser contemporâneo dele. Chico é tudo que não somos ou não conseguimos ser, mas não o invejamos. Pelo contrário: temos um orgulho dele que é interminável, como a Gilette dos bons tempos. Chico é uma criação rara da natureza: bonito de doer, bem nascido, de estrela e que cria sem esforço, como se tudo que cria fosse pura inspiração, descendo mansamente como maná do céu. Faz parecer simples compor as músicas que ele compõe.

É o traço que distingue o artista excepcional da média dos bons. Como se já tivesse nascido com o dom, suas primeiras músicas nasceram clássicas, perfeitas. Estavam na contramão de sua época, não integravam escolas. Porque mal saíram do compositor já integravam o cancioneiro nacional. Não sendo de vanguarda, um demarcador de épocas, ele veio ao mundo para ser eterno. Crianças, adolescentes e idosos desfrutam de suas composições. Não por um ajuste demagógico ou comercial aos tempos, conforme a trajetória de Roberto Carlos. É porque Chico fala ao gênero e à espécie, indiferente ao tempo, universal. Por isso foi difícil enquadrá-lo e compará-lo: ele é único.

O patrimônio imenso que trouxe ao nascer, ele o enriqueceu com seus atos conscientes e o exercício do seu livre arbítrio. Podia dar-se mal por sua beleza ou pelo hábito de beber muito. Compensou os riscos e as extravagâncias com a prática de esportes, do futebol de campo ao de botão, o caminhar, o rir, a partilhar sua luz. Na hora de compor é o poeta, seresteiro, trovador anunciado por Gil. No momento de se expressar como pessoa, é um cidadão soberbo (e sem soberba).

Claro que o ídolo não é a tradução da perfeição. Vendo com muita atenção o documentário sobre seu pai, o historiador Sérgio Buarque de Holanda, me surpreendi com Chico, o mais comedido (e às vezes incomodado) dos filhos a depor. Quase não falou. O que falou, forçado, parece trair um sentimento de (como diria para ser fiel?) mágoa em relação ao pai. Sérgio pontificou num segmento da expressão humana que exige mais transpiração, ou então porque não foi bafejado com tanta fertilidade pela natureza quanto o filho. Estudou mais, soube mais, fez mais. Para isso, se fechava em seu gabinete. Talvez não tenha dado ao filho, o mais brilhante e famoso da família, a atenção que ele queria, ou julgava merecer.

Quem haverá de saber? É a tonalidade escura na biografia rutilante de Francisco Buarque de Holanda, o melhor de nós, que tanto bem nos fez em grande parte dos seus agora 60 anos. Na marca do tempo, igual a nós. Nossa projeção do melhor de nós num firmamento que nunca alcançaremos. Por isso mesmo, ao nos emocionar, nos seduzir ou nos fazer chorar, fazendo-nos melhor do que somos.

Lúcio Flávio Pinto